ERNESTO NAZARETH: ENTREVISTAS

 

Entrevista com Luiz Antonio de Almeida sobre Ernesto Nazareth - 2006

A equipe da Choro Music esteve no Rio de Janeiro em outubro de 2006 e entrevistou Luiz Antonio de Almeida. Leia mais a seguir:

Gostaria que você me explicasse um pouco sobre sua formação.

Sou filho de uma família musical, primo de Zequinha de Abreu, cuja terra natal era Santa Rita do Passa Quatro.

Em 1976, com 14 anos de idade, vi num programa de TV a pianista Eudóxia de Barros respondendo sobre a vida de Nazareth e tocando suas músicas. Fiquei impressionado com a musicalidade. Considerei uma música transcendente, com temática brasileira, que tocou meu coração profundamente. Comecei a pesquisar sobre Ernesto Nazareth, comprei discos e iniciei estudos sobre suas composições.

Em 1978 mudei-me para Jacarepaguá, perto da colônia onde Nazareth passou o último ano de sua vida. Acabei conhecendo o enfermeiro que cuidou dele, já bem velhinho, e em seguida me aproximei da família do compositor. Assim, iniciei meu interesse por Nazareth.

Você poderia nos contar um pouco sobre a família de Ernesto Nazareth?

Os três homens da família Nazareth casaram-se com as três irmãs da família Meirelles.

O primeiro a se casar foi Vasquinho, que casou-se com Guilhermina. Logo depois Ernesto casou-se com a irmã Teodora, e a irmã mais velha casou-se com o pai de Nazareth, que era viúvo. Eram famílias muito tradicionais do Rio de Janeiro, muito unidas.

Ernesto teve quatro filhos: Eulina, Diniz, Maria de Lourdes e Ernestinho. Conheci a Jolita, sobrinha de Nazareth, que tinha na época 85 anos. Nazareth não teve netos, mas teve 4 sobrinhos.

Aos 17 anos, já muito interessado na família, encontro-os velhinhos e fui praticamente adotado por eles.

Conheci o filho de Nazareth, Diniz. Com a morte dele, Jolita tornou-se a herdeira universal de Nazareth, que acabou passando para mim todo o acervo. Dessa forma, tornei-me o biógrafo, pois já tinha minha pesquisa em paralelo. Entrevistei amigos, ex-alunos, etc.

Tornei-me um grande especialista em Ernesto Nazareth, como pesquisador de sua vida. Aos 24 anos, ganhei um prêmio nacional pelo meu trabalho. Vários pesquisadores do mundo me procuram para entender a vida de Nazareth. Fiz alguns trabalhos de pesquisa para editoras do Japão, país que muito me impressionou, além dos EUA e do Panamá.

Como você caracteriza a música de Nazareth, clássica ou popular?

Ernesto Nazareth compôs música erudita. São clássicos, no sentido de estarem presentes até os dias de hoje. Há músicas com mais de 100 anos de existência sendo tocadas até hoje. Classifico a música de Nazareth como erudita, mas com temática popular, na forma como se apresenta ao público. Há uma brasilidade em suas músicas, com uma temática popular, mas a estrutura é erudita. Não é verdade que é uma música simples. Ela é popularizada, mas não popularesca.

Nazareth chegou a dar aulas? Ele gerou discípulos?

Não. A vocação de Nazareth era a composição. Ele foi um professor muito requisitado pelas meninas da alta sociedade. Nunca teve um discípulo. Dava aula para suprir suas necessidades.

Nazareth estudou piano seriamente. Tocava as sonatas de Chopin e tinha muito conhecimento. Percebeu que não conseguia se sustentar como intérprete. Já em sua primeira composição recebeu uma grande aceitação.

É verdade que Nazareth contraiu sífilis? Como isso foi descoberto?

Ninguém comentava sobre isso. A própria família não queria aceitar. Os médicos da colônia onde ele ficou internado apresentaram esse diagnóstico. Provavelmente numa dessas aventuras de homem viúvo que era, ele contraiu a doença. No caso de Nazareth, a doença atingiu o sistema nervoso. Chegou a se tratar, mas não se curou. Foi o problema da loucura que o levou a ser internado. Ele sempre tentou fugir e, numa destas fugas, pegou o caminho errado e foi parar numa floresta onde havia um rio.

Nunca tive certeza absoluta se ele se matou ou se foi um acidente, e ele acabou morrendo afogado. A maioria das pessoas naquela época não sabia nadar.

Nos inúmeros depoimentos que colhi para minha pesquisa, as opiniões sobre a causa da morte do Nazareth se dividiam entre os que achavam que ele havia se matado e os que discordavam.

Nazareth tinha seus momentos de lucidez. Foi uma grande coincidência isso acontecer no dia do aniversário de seu filho.

A sua morte aconteceu no dia primeiro de fevereiro de 1934 e não no dia 4 de fevereiro, como divulgam. Ele foi encontrado nas águas do rio que abastecia as casas da cidade, o que provocou contaminação. Não há dúvida que ele morreu no mesmo dia da fuga. Na época, ele tinha 71 anos e não resistiria se dormisse na floresta.

Nazareth gostaria de ter seguido uma carreira clássica, de ter ido à Europa?

Ele era um homem muito frustrado. Costumava falar que gostaria de ser uma Guiomar Novaes. Falava que gostaria de ir para a Europa. Tinha muitos amigos que viajavam, mas ele não tinha recursos.

Ele foi nosso maior compositor do século XIX, pela grande qualidade de sua obra. Escreveu também uma tese sobre piano e teoria musical.

O que Nazareth achava do fato de os músicos de Choro tocarem suas músicas?

Nazareth gostava que sua música fosse bem tocada. Ele era muito sensível. Não importava o instrumento que fosse, mas tinha que ser bem tocado. Ele participava de grupos de choro e não tinha nenhum preconceito se sua música saísse do universo do piano e fosse para as cordas ou sopros.

Por que ele chamava de Tango Brasileiro ao invés de Tango? O tango era considerado um gênero menor?

Não havia essa terminologia na época. Nazareth considerava Tango um tipo de música que ele e a Chiquinha Gonzaga faziam. Era um tipo de música que tinha influência espanhola, da Andaluzia, passando pelos negros de Cuba e chegando ao Brasil. O lundu e o batuque africano exerceram grande influência. Ele aplicou o nome que a Chiquinha já usara em seu primeiro tango.

Em 1893 compôs “Brejeiro”. Foi seu primeiro tango. A Chiquinha já tinha 13 tangos compostos nessa mesma época. No entanto, o tango argentino veio surgindo com muita força, e então, para diferenciar, foi aplicada a denominação de tango brasileiro. Esse era o gênero preferido de Nazareth.

Veio, então, o ritmo africano e a polca, uma influência européia, e Nazareth quebrou com tudo isto.

O Choro surgiu como uma forma de se tocar. Não era um gênero musical. Era um tipo de formação, com violão, flauta, bandolim. Era o grupo que se denominava de Choro, e foi se tornando um estilo de tocar.

Nazareth e Chiquinha Gonzaga foram os últimos a manterem o nome de tango brasileiro.

O “Apanhei-te Cavaquinho” é uma polca, não um Choro. Por interesses comerciais foi editado como Choro.

Nazareth só deixou um Choro: Cavaquinho – Por que Choras?

Os editores não queriam mais chamar de polca por ser um gênero já superado. Achavam melhor prevalecer o Choro por ter se tornado mais popular.

O maxixe surgiu na mesma época do tango brasileiro e do Choro. Era uma época muito conservadora. Surge, então, uma dança com atrito físico, muito sensual. O maxixe sempre exigiu o contato físico. Nazareth só compôs um maxixe e mesmo assim usou um pseudônimo – Renaud – e a música chamava-se “Dengoso”. De certa forma, esse estilo era “condenado” por causa da coreografia.

O maxixe, o choro e o tango brasileiro eram da mesma época.

Nazareth é visto em algumas partes do mundo como erudito. Você poderia falar sobre isso?

Ele é visto no mundo inteiro como um músico erudito. Desenvolvi um trabalho sobre a música de Nazareth no Japão, e eles só queriam saber desse compositor. Não tinham interesse por nenhum outro. Os japoneses se interessaram muito pelos arranjos para sax e clarineta. Ele é uma espécie de ídolo por lá.

Quando a imperatriz do Japão veio para o Brasil, fez uma recomendação para somente tocarem Ernesto Nazareth e Chopin durante o cerimonial. Ele é o compositor brasileiro mais gravado no exterior, depois de Villa-Lobos. Há mais de 1600 gravações.

Alguns títulos são curiosamente estranhos. Por exemplo, “Nenê”. Possui letra do Catulo e traz uma conotação amorosa, e não infantil. Como essas letras surgiam? O letrista conversava com o músico para entender o que ele pretendia transmitir com sua música?

Nazareth compôs somente uma ou duas vezes em parceria. Catulo pegava a obra já publicada e acrescentava uma letra. Virava um sucesso. Era uma certa forma de abuso, mas o Nazareth não reclamava, porque acabavam virando um sucesso. As vezes o letrista chegava a mudar o título da música. Por exemplo, “Brejeiro” virou “Sertanejo Enamorado”. Nazareth somente colocou letra em três ou quatro de suas músicas, como por exemplo “Beija-flor” e outros sambas.

Nazareth chegou a declarar seus sonhos, seus objetivos maiores para sua música?

Bem, ele viveu por volta de 70 anos. Pelos depoimentos que colhi através de entrevistas com pessoas que conviveram com ele e que já o pegaram numa fase mais velha, havia um sentimento de frustração, ele não falava mais de sonhos.

Maria do Carmo Nogueira da Gama comenta em um de seus artigos sobre Nazareth: "Assim como Rachmaninov, Nazareth tinha as mãos muito grandes, o que lhe facilitava compor e tocar acordes acima de uma oitava mas torna difícil a interpretação de sua obra, ao piano, por aqueles cujas mãos tem um tamanho normal. "
Realmente, isso ficou claro pra nós quando da adaptação das composições de Nazareth para flauta, clarinete, sax e bandolim. Nem sempre foi possível adequar as músicas de Nazareth perfeitamente às extensões desses instrumentos.
Esse fato era comentado por ele ou por outras pessoas na época?


Diziam que Nazareth não tinha mãos, mas patas!... Isso eu ouvi de contemporâneos dele. O próprio Mignone me disse que ainda que suas mãos fossem muito grandes, ele tirava um som aveludado e tocava com muita suavidade. 

No processo de compilação das obras de Nazareth, encontramos duas partituras (Nenê e Bambino) com introduções e com letra de Catulo da Paixão Cearense. Não conseguimos encontrar introduções em Nenê e Bambino em nenhuma outra edição das obras de Nazareth, somente nessa específica, em versão com letra.

A pergunta é: as introduções foram elaboradas por Nazareth especialmente para essa versão com letra, ou foi feita independentemente por outros? Será que Nazareth  "aprovou" a existência dessas duas introduções?

Essas introduções não são de Nazareth. Foram inseridas só nas partituras com letras. Edições, inclusive, póstumas.

O último filho de Nazareth a morrer foi o Diniz, em 1983. Ele deixou alguma entrevista gravada ou escrita antes de morrer, à qual poderíamos ter acesso?

Tive grande amizade com esse filho de Ernesto Nazareth. Cheguei a entrevistá-lo com um gravador de fita K7. Tenho a fita até hoje, mas ele falava muito pouco. Ele era muito surdo, eu tinha que escrever as perguntas para ele em letras garrafais. Ele lia e respondia. Era uma coisa muito chata. Desisti logo nos primeiros vinte minutos. Essa entrevista, na minha opinião, só valeu mesmo pelo registro da voz dele.

Como você caracterizaria Nazareth numa frase?

Nazareth, para mim, é uma daquelas coisas que o Brasil produziu. Ele era um romântico, compondo frases melódicas e melancólicas. Parecia que a música dele vinha do espaço.

 

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