ERNESTO NAZARETH: ENTREVISTAS

 

Entrevista com Eudóxia de Barros - Abril de 2007

A Choro Music teve o privilégio de entrevistar Eudóxia de Barros, uma das maiores pianistas e intérpretes da obra de Ernesto Nazareth de todos os tempos, responsável pelo ressurgimento de sua obra nos anos 60 através da gravação de memoráveis LPs e aclamados concertos.

Nós gostaríamos que você comentasse um pouco sobre como a música entrou na sua vida, quais foram as suas influências e um pouco dos seus interesses musicais.

Eu nasci numa família não de músicos, mas de pessoas muito musicais. Minha avó tocava piano regularmente como amadora; tocava populares, Ernesto Nazareth também, e os clássicos. Havia uma forte influência de minha avó e também de meu pai, que tocava violão. Tínhamos um piano em casa e todos gostavam.

Naquele tempo ouvia-se muito rádio, muita música clássica. Havia a Rádio Excelsior, a Difusora, a Gazeta. Também ouvíamos muita música popular. Minha irmã e eu tentávamos reproduzir no piano o que ouvíamos. Meu pai, então, achou que deveríamos estudar piano. Começamos a ter aula com uma professora do bairro. Ela nos deu aula por um tempo, até que um dia falou para meu pai que tudo que sabia já havia nos ensinado e que era tempo de procurarmos um outro professor. Através de um conhecido, minha irmã e eu fomos apresentadas a um importante professor alemão. Ele veio até nossa casa para nos ouvir, fez uma série de testes e verificou nosso nível de conhecimento. Iniciamos aulas com ele, Prof. Karl Heim, e depois de um tempo fiquei também interessada em ter aulas com Madalena Tagliaferro.

Continuei a ter aulas teóricas com o professor alemão e aulas de piano com a assistente de Tagliaferro, Nellie Braga, bem como algumas aulas de Alta Interpretação com Tagliaferro, quando ela vinha ao Brasil. Depois de dois anos, Magda Tagliaferro achou que eu deveria ir para a França continuar meus estudos. Conseguiu-me uma bolsa do Ministério da Educação. Passei dois anos na Europa, morando em Paris.

O que você gostava de tocar? Tinha algum compositor ou estilo preferido?

Manifestei aptidão e muito gosto pela música brasileira erudita, já que a popular me era proibida de tocar naquela época. Voltei em 1959 depois dessa vivência na Europa, e comecei a tocar bastante no Brasil. Em 1963, fui avisada pelo musicólogo Mozart de Araújo que haveria um concurso de discos em homenagem aos 100 anos do nascimento de Ernesto Nazareth. Até então, ninguém gravara Nazareth de acordo com a partitura; só havia arranjos, aliás, muito bem feitos. Procurei a gravadora Chantecler, que era uma importante gravadora na época. Assinei um contrato e lancei um LP com músicas de Ernesto Nazareth.

Na ocasião houve uma sensível discriminação por eu ter gravado Nazareth. Nem me importei com isso, porque era uma música tão bem feita! A música composta por Ernesto Nazareth é uma música excelente; em uma determinada circunstância, podemos dizer que Nazareth é um compositor muito mais erudito do que popular, pela riqueza das melodias, pelos achados harmônicos, pela forma perfeita de suas composições.

Em 1963 houve o lançamento do meu disco "Ouro sobre Azul". Esse trabalho teve uma enorme vendagem e cheguei a receber um disco de ouro.

Quem teve a iniciativa de gravar Ernesto Nazareth?

A idéia surgiu por causa da comemoração do centenário de Ernesto Nazareth. O concurso acabou não acontecendo, mas lançamos o disco. Depois, em 1976, participei daquele programa de televisão, "8 ou 800", conduzido pelo Paulo Gracindo na TV Globo. Não ganhei, mas valeu! Sou muito devedora a Ernesto Nazareth, que só me deu muita sorte. Muitas pessoas começaram a gravar as composições de Nazareth depois daquele ano.

O resgate da obra de Ernesto Nazareth é muitas vezes atribuído a Jacob do Bandolim e suas gravações de 64, mas na verdade o resgate veio antes, ou seja, já em 63, com a gravação feita por você.

Exatamente. Naquele mesmo ano recebi um prêmio pela gravação do disco. Fiz também inúmeros concertos. O disco "Ouro sobre Azul" marcou esse lançamento. Gravei também "Gotas de Ouro" em 65, devido ao enorme sucesso do primeiro disco, mas desta vez com músicas menos conhecidas de Nazareth. Depois disso outros pianistas também começaram a gravar Ernesto, como o Roberto Szidon e o Arthur Moreira Lima, entre outros. De lá para cá venho tocando as composições de Nazareth e não pretendo parar.

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