ERNESTO NAZARETH: ENTREVISTAS

 

Entrevista com Aloysio de Alencar Pinto - 2006

A Choro Music entrevistou o grande pianista e musicólogo Aloysio de Alencar Pinto em outubro de 2006, àquela época com 95 anos de idade.

Quantos anos o Sr. tinha quando conheceu Ernesto Nazareth?

Conheci-o na década de 20, eu ainda era um garoto, tinha 12 anos de idade. E depois o reencontrei em 1933, e 34 foi o ano de sua morte. Nessa época eu já estava formado em direito. Sempre estudei piano, fui aluno de grandes professores franceses. Conheci Chiquinha Gonzaga também, que faleceu em 35 e já era velhinha.

Quanto tempo o Sr. conviveu com Nazareth e como foi esse contato?

Não tive um convívio direto com ele. Convivi mais com a filha dele, Eulina, que era professora de escola pública.

Conheci o Ernesto tocando nas casas de música. Ele fazia uma turnê pelas casas de música do Rio de Janeiro. Ele tinha uma vida muito movimentada.

Naquela época não havia os meios de comunicação, mas ele era muito conhecido. Quem tocava piano comprava as músicas dele. Todos os estudantes tocavam, de norte a sul do país.

Como o Sr. caracterizaria o Ernesto?

O Nazareth foi o maior compositor brasileiro de música popular da época que atingiu os parâmetros da música clássica. É uma das músicas mais tocadas pelos grupos de Choro. O tango brasileiro é criação do Nazareth.

O Nazareth é acima de tudo um compositor brasileiro. O que ele tocou e criou não existe mais. Ele escreveu polcas, xotes, tangos e muito mais. A música que ele criou atravessa os tempos.

O brasileiro é o povo mais musical que existe no mundo. O pianista brasileiro que quer ir para a Alemanha tocar Beethoven está fadado à morte. Os alemães nunca darão espaço para um músico que não seja alemão tocar a música deles.

O que mais o marcou em relação a Ernesto Nazareth?

Ele foi um criador comparado aos maiores músicos do mundo. Era um homem educado, fino e humilde. Foi um autodidata.

O Ernesto chegou a comentar algum dia se gostaria de ter seguido carreira puramente clássica, se gostaria de ter estudado na Europa?

Nazareth não aspirava ir à Europa. Sua aspiração era tocar bem Chopin. Ele tocava regularmente, tinha sua técnica pessoal, estudava muito, tinha bom dedilhado. Ele gostava muito dos românticos.

O que Ernesto Nazareth achava dos chorões tocando sua música?

A gente do Choro tinha um status inferior ao dele. O choro estava ligado ao povo, aos escravos, e Nazareth gostava dos populares.

Os populares tinham um grande respeito por ele. Nazareth era um parâmetro, e muito considerado pelos músicos. Suas músicas eram bem escritas. Todos que tocavam cavaquinho, violão, etc. tocavam de ouvido, não sabiam ler partitura.

Ernesto Nazareth escrevia uma música elaborada, sofisticada. Escrevia coisas com 4, 5, 6 bemóis.

Ernesto Nazareth tinha vontade que sua música fosse apreciada por todas as classes sociais?

As classes sociais que queriam conhecer e tocar sua música, é um movimento contrário, ou seja, vem de baixo para cima. Ernesto Nazareth foi valorizado na sua época. Ele gostava que os chorões tocassem.

A música de Ernesto Nazareth atravessa os tempos porque é a melhor do mundo.
Brasileiro gosta de gol marcado no estrangeiro.

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