JACOB DO BANDOLIM: ENTREVISTAS
Entrevista com Izaías Bueno de Almeida
Quando você começou na música, com que instrumento, com que idade e que professor?
Comecei com um cavaquinho aos 8 anos de idade, de ouvido, tentando tocar o que ouvia na época. Não tive professor do instrumento. Meu pai, que foi clarinetista, notando minha tendência musical, me comprou um bandolim, com a finalidade de me preparar para tocar violino (que era o seu sonho), de me ver tocando em orquestra sinfônica, e tinha razão quanto ao meu futuro musical. Numa orquestra ganhava-se salário fixo e aposentadoria. Os violinos na época custavam muito caro, razão pela qual me chegou às mãos um bandolim que custava bem mais barato, com a vantagem de usar a mesma afinação do violino. Segundo meu pai, pelo menos a minha mão esquerda estaria preparada para quando chegasse o violino. Nestes termos, o estudo teve seqüência com um Método para violino (Bernardo Ferrara - Volume I), com as respectivas preparações de escalas, posições, etc. A mão direita ficaria por minha conta, já que à época não se contava com um professor. Os estudos teóricos foram feitos com meu pai, que tinha um conhecimento musical impecável (lia à primeira vista em todas as claves com uma facilidade invejável). Os estudos corriam bem, até que tomei conhecimento das rodas de choro existentes no bairro em que fui criado (Parque Peruche, na Casa Verde, que foi um celeiro de grandes Chorões, principalmente de cordas). Desfeito o sonho de meu pai, que acabou abandonando sua curta carreira de mestre, segui, primeiramente apreciando os Chorões e depois começando a participar das rodas, nas quais, aliás, me dava muito bem. Em pouco tempo já era convidado pelo Mestre Antonio Dauria (violonista) para participar de seu conjunto, substituindo (em determinadas ocasiões) o bandolinista titular - Amador Pinho, um dos grandes bandolinistas brasileiros, com quem tive muito orgulho de aprender muitas "dicas" sobre técnica instrumental. Porém minha técnica pessoal foi puramente autodidata, uma vez que não existiam professores de bandolim.
Quando e como foi a primeira vez que você ouviu ou soube da existência de Jacob do Bandolim?
Ouvi Jacob pela primeira vez através de discos. Isso foi mais ou menos em 1949, ouvi o choro “Flamengo” e me apaixonei pelo estilo dele, não só pelo bandolim, mas pelo acompanhamento (violões, cavaquinho e pandeiro). Impecável, perfeito, diferente das rodas das quais eu participava. Já tinha ouvido outros bandolinistas, como Luperce Miranda (com toda a sua velocidade), Garoto, Chico Neto e outros, e com sinceridade não me tinha me sentido tão atraído, embora os citados tenham sido grandes instrumentistas. Porém Jacob dizia algo mais com a pureza de suas notas, cada uma delas trabalhada com uma digitação especial, sem mencionar sua interpretação -algo nunca visto em bandolinistas - e o seu jeitão maroto de dividir.
Como foi sua convivência com o Jacob? Conte-nos alguma história.
Convivi muito com Jacob, e admirava sua paixão por São Paulo. Com a sua contratação pela Radio Record, ele se hospedava na residência de Alberto Rossi (cantor e grande amigo de juventude da Radio Ipanema), e dessa forma me foi possível participar das memoráveis rodas de choro, ora na Casa do Rossi, ora na casa de Antonio Dauria. São inúmeras as historias vividas nessa época, e apesar de seu jeito austero, Jacob não passava de um brincalhão, um eterno menino. Uma dessas histórias (conhecidíssima no meio musical) se passou no dia em que o flautista Mauro Silva fez uma valsa em homenagem ao próprio Jacob, e tocou-a em primeira audição na Casa do Rossi. Jacob ouviu-a com toda a atenção, e perguntou ao Mauro, brincando, de quem ele tinha roubado aquela melodia, enquanto apanhava o bandolim e repetia nota por nota da música com aquela interpretação toda pessoal, sem contar os peculiares improvisos. Mauro foi ficando pálido, e terminada a apresentação dizia, aos soluços: - "Juro por Deus que essa valsa é de minha autoria, não é possível que você já a conhecesse. Foi feita especialmente para você, e essa melodia não é comum!" (E realmente não era). Jacob tinha um ouvido e uma memória musical excepcionais. E o flautista queria se matar, chegando a querer se atirar pela janela, mas é lógico que foi impedido, até que Jacob explicou que tinha decorado a valsa no momento em que a ouvira, que era linda, e que realmente tinha sido a primeira vez que a ouvira. Como a valsa até o momento não tinha nome, foi batizada de "Delírio".
O Jacob te falou alguma vez sobre como que ele queria que sua música fosse tocada, ou ele era totalmente imparcial sobre isso?
Jacob era muito exigente, tanto com músicas de sua autoria com as de outros compositores. Não admitia distorções com a melodia ou harmonia e dizia que cada interprete teria que tocar com a sua interpretação pessoal, mas jamais deturpar a originalidade de cada peça. Lembro-me dessas palavras quando certa vez toquei "Doce de coco", de sua autoria, improvisando algumas frases, e ao terminar ele me disse: - "A melodia por si só já é bonita, não é necessário que você fique inventando frases aleatórias", o que me causou admiração, já que Jacob era um improvisador nato.
Sabemos que muitos dos títulos das músicas de Jacob tinham um significado associado. Dentre as músicas a seguir, você teria alguma história associada para nos contar ou um significado por trás do titulo?
Não tenho conhecimento dos significados dos nomes de choros batizados por Jacob. Existem muitas controvérsias, inclusive sobre a valsa "Feia", que teria esse nome em virtude da filha de um amigo seu, que estava muito doente e teria falecido após algum tempo. A valsa seria uma recordação dos dias em que Jacob teria feito visitas à garota enferma. O choro "Remelexo", em minha opinião jazzístico mas de muito bom gosto, foi feito em resposta a alguns críticos da época, que consideravam Jacob um músico "quadrado" (gíria musical pejorativa, que significa músico tradicional, "sem balanço"). Existe também a valsa "De Coração a Coração", que foi feita para seu cardiologista.
O que pode ser atribuído a Jacob na forma de se tocar Choro com bandolim? Como era antes de Jacob e como ficou depois dele?
As escolas de bandolim se baseiam na técnica italiana (origem do bandolim), como tocavam os antigos bandolinistas, com "tremolos" muito rápidos e algum exagero na região agudíssima, que a meu modo de ver não soam muito bem (ao contrário do violino), além do sistema de mudança de posições. Ora, um violino é um violino e um bandolim é um bandolim e, portanto, não aceito a opinião de velhos bandolinistas no sentido de que deveria ser feito um estudo de mão esquerda idêntico ao do violino. Jacob veio preencher essas lacunas e quebrar velhas tradições (uma das vantagens do autodidatismo), transformando o "mandolino" num bandolim bem brasileiro, talvez com profundas raízes originadas dos guitarristas portugueses, em virtude de sua maneira de interpretação.
Em um parágrafo, como você resumiria a importância de Jacob do Bandolim para o Choro e para a música brasileira?
Jacob é de suma importância para a música brasileira, por sua pura brasilidade e poder de difusão de características bandolinistas jamais alcançadas pelos mais modernos instrumentistas.
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