JACOB DO BANDOLIM: ENTREVISTAS

 

 

Entrevista com Elena Freitas Bittencourt

Como era a convivência do Jacob com a família?

Meu pai viveu muito em casa, sempre muito voltado para a música. Ele tinha a profissão de serventuário da justiça e em casa ele era muito dedicado a  música, principalmente ao choro.Em casa ele ficava constantemente com os gravadores ligados ,um de rolo e um portátil , então, qualquer coisa que surgisse ele já gravava, alguma idéia musical, alguma  inspiração ele já passava a mão no bandolim e já deixava gravado, às vezes ele estava dirigindo e compunha , então em casa ele estava sempre no escritório voltado pra parte do arquivo . Acabou fazendo um dos mais belos arquivos de choro do país.

A vida dele era essa, só saia se fosse pra ir pra alguma roda de choro de pessoas conhecidas, que gostassem de choro, ele não permitia ir a uma festa onde o choro ficasse de fundo, enquanto houvesse um músico tocando choro ele tinha que ser ouvido e, apesar de ser um ritmo dançante, na época, o chorista não admitia que se dançasse. Eu mesma presenciei, no “Tijuca Tênis Clube” um show  de choro onde chegou um casal e começou a dançar lá no fundo  e os músicos pararam de tocar na mesma hora .

Hoje em dia não tem mais isso, enquanto o artista está tocando, todo mundo bate papo, antigamente não era bem assim não se dançava. Nos Saraus na minha casa, não tinha bebida alcoólica, não entrava quem não tivesse sido convidado, penetra não tinha e todo mundo ficava calado para ouvir a música.

Numa ocasião, uma senhora casada com um dos maiores criminalistas do Brasil, estava com crise de tosse, meu pai  me chamou para dar a  pastilha  anti-tosse a ela porque estava atrapalhando. Ele era muito rigoroso mesmo.

Era uma maneira de respeitar o músico, ele dava muito valor a isso. O músico merece respeito; não tocava para ser fundo musical, para esse fim podia se ter uma orquestra.

Como era o traço dele de pesquisador? Ele colecionou muitas partituras?

Ele colecionava e muita gente sabendo enviava pra ele. Há no Museu da Imagem e do Som cadernos muito antigos escritos por compositores  que davam a  ele e foi aumentando muito o arquivo.

Ele teve algum tipo de influência pela obra de Ernesto Nazareth?

Ele teve alguma atração musical por alguns compositores como Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, muitos outros que ele gravou e ele se viu muito atraído pela história.

Quem foram as influências como músico?

Meu pai começou a tocar garoto. Minha avó achava que ele deveria toca violino e o presenteou com um.  Mas ele queria mesmo era bandolim, como acredito que já temos um caminho traçado, ele veio com aquela veia já formada. Meus avós não eram músicos, então ele foi à luta.

Trabalhou como acompanhante de cantores em rádios, e gravou com compositores que ele gostava muito.

Quais ele gravou?

Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, o autor do hino ao Flamengo, e todo mundo achava que ele era Flamenguista, mas ele não torcia pra time nenhum, aí depois ele gravou Vascaíno, essa sim ele fez pro meu irmão. Meu pai dizia que torcia pela seleção brasileira.

E como era a personalidade dele?

Personalidade fortíssima, um QI altíssimo, procurando a perfeição sempre , meu pai morreu sem gostar de um disco sequer que ele tinha gravado; sempre colocava defeito , todo mundo achava perfeito e ele sempre achava uma nota que não tinha ficado boa.

Ele compunha muito?

Era muito de repente, ele tinha por habito acordar de madrugada, meu quarto dava no escritório, minha janela ficava virada pro escritório dele, então às vezes eu acordava de madrugada e ficava observando e ele tocava musica clássica.

E ele ia gravar um disco que eu tinha pedido a ele, aí de repente ele ficava até no cartório trabalhando, eu acredito numa composição que surge do nada, isso é inspiração.

Do que vamos fazer uma música, senta e vai fazer, é mais mecânico.

Ele estudava muito?

Quando ele foi gravar o “Retratos”, ele mal saia de dentro do escritório, uma semana inteira estudando pra poder fazer  o espetáculo e depois fazer a gravação.

Ele tinha sonhos de ir pra Europa?

Não, quando meu pai faleceu, com 51 anos, ele estava pra ir pra Portugal tocar.. Mas ele nunca teve essa ambição.

O grande sonho do meu pai era que o Choro se difundisse mais. Então, eu costumo dizer assim, meu pai se vivo estivesse, vendo tantos jovens tocando o bandolim, na escola portátil  acho eu ele já teria infartado mais vezes ainda.

Eu lamento muito porque meu pai realmente muito é reconhecido pelos jovens e estes não podem chegar e ouvir ele mesmo tocando. Não há gravação em termos de televisão.

Na Record, as gravações foram embora com o incêndio, na TV Tupi também, na TV Excelsior foi gravado propaganda em cima.

Chegamos a oferecer uma quantia em dinheiro pra quem tivesse gravações dele tocando.

Vc estava com quantos anos quando ele faleceu?

Eu tinha 27 anos e nos dávamos muito bem

Meu pai foi um grande pai.

Nós doamos o arquivo pq meu pai queria assim, o arquivo foi feito pra ser consultado e isso não estava acontecendo, ele estava se perdendo.

Então o instituto começou por isso, pra poder ajudar ao MIS em 2002 a começar a recuperar tudo.

Fizemos essa recuperação, vamos fazer os cds pra entregar para o MIS.

Ele deu aula?

Ele não deu aula , ele tinha discípulos, Deo Rian não foi aluno de papai, ele freqüentava minha casa e papai fez alguns testes, dando partituras e mandando ele trazer na ponta do dedo na semana seguinte e Deo nunca falhou, tocando e devolvendo a partitura.Era um dos únicos que papai permitia que assistisse os ensaios lá em casa.

Ele tinha um programa de tv?

Não . Ele deu entrevistas e  tinha programa na rádio nacional.

Qdo ele faleceu ele estava fazendo o programa.

O ultimo programa só puseram no ar depois do falecimento do papai.

Ele não saia sozinho depois do primeiro infarto e mamãe estava meio doente e ele começou a dizer que queria ver Pixinguinha e foi , e só os dois sabem o que aconteceu lá.

Ele chegou , largou o carro  do lado de fora, já estava passando mal, mamãe correu para socorre-lo e assim ele se foi.

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