JACOB DO BANDOLIM: ENTREVISTAS

 


Déo, líder do conjunto "Noites Cariocas".
Leia biografia
Veja vídeos

Entrevista com Déo Rian

Quando você começou na música, com que instrumento, com que idade e com que professor?

Em 1954, com um cavaquinho (ré, si, sol, ré). Tinha 10 anos de idade, e depois passei para o bandolim (mi, lá, ré, sol). Aos 15 anos fui estudar bandolim por música com o clarinetista chorão Moacyr Arouca, e com 20 anos estudei um pouco com o grande bandolinista Luperce Miranda. 
 
Como você conheceu o Jacob? 

Foi em 1962, eu morava em Jacarepaguá e Jacob também. O Sr. Milton, amigo de Jacob, me viu tocar numa roda de choro e me convidou para ir à casa de Jacob. A partir daí fiquei amigo do mestre até seu falecimento, indo à casa dele toda semana. 

Conte-nos um pouco sobre os saraus na casa do Jacob. Quem participava e quando eram realizados? O que se tocava? Como tudo começou e o que inspirou o Jacob a  realizá-los?

Eram saraus memoráveis, freqüentados por Radamés Gnattali, Elizeth Cardoso, Paulo Tapajós, o conjunto Época de Ouro, Tia Amélia, Turíbio Santos e outros tantos. Eram  realizados geralmente às sextas ou sábados. Tocávamos choros, valsas, sambas, música de boa qualidade. Não sei como tudo começou porque quando conheci o Jacob já  existia. 

O que agradava Jacob nesses saraus (tipo de música, forma de tocar, etc.) e o que o  irritava (dançar, falar enquanto se tocava , etc.)? 

A presença dos amigos e a boa música que era apresentada o agradavam. Enquanto se  tocava ninguém falava, todos ficavam ouvindo, o público era escolhido: só ia quem gostava de música, conversa só nos intervalos, silêncio total. 

Você comentou certa vez que cada vez que tocava um de seus choros, Jacob o fazia de forma diferente. Comente mais sobre isso. 

Sim, porque ele era muito criativo, sentia e tocava. A maioria das vezes mudava para melhor. 

O Jacob te falou alguma vez sobre como que ele queria que as pessoas tocassem seus choros?  Seria da forma com que foram escritas (muitas com manuscritos escritos por ele mesmo) ou da forma com que ele tocava? 

Ele dizia que a primeira vez deveria ser tocado como o autor fez e nas repetições  poderia se improvisar. Ele dizia que o verdadeiro e autêntico chorão era aquele que decorava a música e em seguida dava a sua interpretação 

Os editores oficiais de Jacob publicaram partituras de seus choros no passado da forma como foram escritas (bem diferente do que o Jacob tocou nas gravações). Isso foi orientação do próprio Jacob? Ele se manifestava de alguma forma sobre isso ou era totalmente imparcial?

Ele dizia que as edições geralmente saíam erradas. Mas muitas de suas músicas ele mudava na hora de gravar, sentia que uma nota ou outra iam ficar melhor e gravava. 

Como Jacob via essa questão da forma escrita da música? Por acaso ele escrevia seus manuscritos somente para documentar a inspiração que tinha tido num dado momento,  ou como um documento ou referência a ser seguida no futuro? 

Escrevia somente para documentar a inspiração que tinha no momento, às vezes somente o tema e depois desenvolvia. 
 
Sabemos que muitos dos títulos das músicas de Jacob tinham um significado associado. Dentre as músicas a seguir, você teria alguma história associada para nos contar ou um significado por trás do titulo? 
 
1 - De coração a coração – foi feita em Brasília em 1967, e dedicada a seu médico cardiologista, Dr. Luciano Vieira.

2 - Doce de Coco - Jacob gostava muito de Doce de coco e sorvete de coco.

3 - Vascaíno – Foi dedicado a seu filho Sérgio Bittencourt, porque era torcedor do Vasco da Gama.

4 - Bole-Bole – Ele se inspirou numa gafieira que existia na Rua Real Grandeza, no bairro do Botafogo, perto da casa do violonista César Faria. Não sei em que ano.

5 - Remelexo - Ele dizia que Remelexo foi uma picardia, uma provocação, porque ele tocava as músicas antigas e diziam que ele tocava “quadrado”. Aí compôs Remelexo e pediu ao Fernando, um violonista que tocava com ele à época, que fizesse aquele improviso que consta da gravação original. Mas ele dizia que não era verdadeiramente um choro, e sim uma resposta aos críticos.

6 - Treme-treme – Inspirou-se no manjar branco.

7 - Vale Tudo - Não sei, deu o nome de partido alto.

8 - Vibrações - Em março de 1964, Jacob deixou o carro para lavar no posto de gasolina e foi à casa do Sr. João Dormund, em Jacarepaguá, nosso amigo comum, onde era o retiro da Velha Guarda, lugar freqüentado por Léo Viana, irmão de Pixinguinha, Jacob, eu e tantos outros músicos antigos. Chegando lá, pediu ao Sr. João papel de música  e lápis e escreveu a música sem instrumento algum, pedindo ao João que a desse aos meninos (a maioria acima de 70 anos) para tocar no domingo. Na segunda-feira, João foi à casa de Jacob e disse: “Você tem idéia da obra prima que escreveu?” Jacob disse: “Você bem podia dar o nome, pois vou dedicá-la a você.” João era espírita convicto e deu à música o nome de "Vibrações".

O que pode ser atribuído a Jacob na forma de se tocar Choro com o bandolim? Como era antes de Jacob e como ficou depois dele?

Antes de Jacob: O acompanhamento quase não despertava atenção quando Luperce Miranda tocava, com seu virtuosismo, com sua técnica fabulosa. O brilho era somente o genial Luperce Miranda. Jacob criou um estilo diferente de tocar, passou a dividir a
responsabilidade principalmente com os violões e valorizou mais o som e a interpretação.

Em um parágrafo, como você resumiria a importância de Jacob do Bandolim para o Choro e para a música Brasileira?

Jacob foi um marco na música brasileira. Criou um estilo de tocar e defendeu o choro até seu falecimento, procurando modernizar o choro sem descaracterizá-lo, preservando sua maneira tradicional de ser tocado sem abrir concessões para as pressões do mercado.

 

 

< Voltar