JACOB DO BANDOLIM: PEQUENA BIOGRAFIA
Por Sérgio Prata*

1918 – Em 14 de fevereiro, na casa de n° 97 da Rua Joaquim Silva, Rio de Janeiro, bairro da Lapa, nasce JACOB PICK BITTENCOURT, filho único de Francisco Gomes Bittencourt e da polonesa Raquel Pick. Sem muitos amigos e com restrições para brincar na rua, costuma ouvir um vizinho francês cego tocar violino.

1930 – Ganha da mãe seu primeiro instrumento, justamente um violino. Mas por não se adaptar ao arco do instrumento, passa a usar grampos de cabelo para tocar as cordas. Depois de várias cordas arrebentadas, uma amiga da família diz: “o que esse menino quer é tocar bandolim..”. Dias depois, Jacob ganha um bandolim, comprado na Guitarra de Prata. Trata-se de um modelo “cuia”, estilo napolitano, e que segundo o próprio Jacob viria a declarar: “me arrebentou os dedos todos, mas eu comecei...”.  Sem ter professor, sua formação é a de um autodidata, tentando repetir no bandolim trechos de melodias cantaroladas por sua mãe ou pessoas que passam na rua.

1931 - Da janela de sua casa, escuta o primeiro choro, É DO QUE HÁ, composto e gravado por Luiz Americano. Estava sendo tocado no prédio em frente, onde morava uma diretora da gravadora RCA. “Nunca mais esqueci a impressão que me causou”, afirmaria Jacob, anos mais tarde. Raramente sai à rua. Suas atividades são ir à escola e tocar o bandolim. Após voltar das aulas, vai à loja de instrumentos musicais Casa Silva, na rua do Senado, n° 17, onde fica palhetando os bandolins.

Um dia, um senhor que levara o violão para consertar ouve Jacob tocar e se interessa. Dá-lhe um cartão para que se apresente na Radio Phillips. Quando lê o cartão, Jacob fica surpreso: o convite fora feito pelo famoso clarinetista Luiz Americano, compositor e intérprete do primeiro choro que ouvira. Jacob chega a ir com um amigo violonista à porta da emissora, mas talvez por não se considerar ainda preparado, desiste e rasga o cartão.

1933 - Em 20 de dezembro apresenta-se pela primeira vez, ainda como amador, na Rádio Guanabara, com um grupo formado por amigos, o Conjunto SERENO. Apresenta o choro “Agüenta Calunga”, de autoria de Atílio Grany, flautista paulista, gravado pelo autor naquele mesmo ano. Jacob não gosta de seu desempenho e resolve praticar mais. Nessa época, ainda toca de ouvido.

Certa vez, na mesma Casa Silva, um conhecido intérprete de guitarra portuguesa, Antonio Rodrigues ouve Jacob tocando violão. Provavelmente, os baixos acentuados da levada “chorona” do jovem violonista impressionam o fadista, que o convida para acompanhá-lo ao violão em suas apresentações.

1934 - Em 5 de maio Jacob se apresenta no Programa Horas Luzo-Brasileiras, na Rádio Educadora e no mesmo dia à noite, no Clube Ginástico Português, ao lado do guitarrista Antonio Rodrigues e dos cantores de fado Ramiro D’ Oliveira e Esmeralda Ferreira. Jacob fica surpreso com o interesse dos fadistas por seu violão. Além disso, passa a comparecer a saborosas bacalhoadas e conhecer famosos artistas portugueses, como a cantora Severa e o guitarrista Armandinho. Boa comida, reconhecimento, experiência, mas nada de cachê. A fase fadista dura pouco. O bandolim chama por Jacob.

Ao mesmo tempo que toma a decisão de que o bandolim “é o seu negócio” e nele deve se concentrar, Jacob inicia sua carreira radiofônica. Em 27 de maio, segundo ele sem pretensões profissionais, inscreve-se e vence o Programa dos Novos, na Rádio GUANABARA, organizado pelo Jornal O Radical, derrotando 28 concorrentes e recebendo nota máxima de um júri composto por Orestes Barbosa, Francisco Alves e Benedito Lacerda, entre outros.

O sucesso é tanto que Jacob é contratado pela estação de rádio, passando a se revezar com o já famoso grupo de Benedito Lacerda (denominado “Gente do Morro”) no acompanhamento dos principais artistas da época, entre eles Noel Rosa, Augusto Calheiros, Ataulfo Alves, Carlos Galhardo e Lamartine Babo. Em conseqüência, seu grupo passa a se chamar “Jacob e sua gente”. A partir dai, torna-se “habitué” das ondas radiofônicas, ganhando cachês e se apresentando em praticamente todas as estações de rádio. Sua atividade é tal que no mesmo dia chega a tocar várias vezes na Rádio Educadora, na Rádio Clube do Brasil e na Rádio Sociedade, nessa época estabelecidas no centro do Rio de Janeiro.                  

Na década de 40, o Regional de Benedito Lacerda é o conjunto de maior popularidade, e Jacob divide o tempo entre o Tribunal e a música, principalmente tocando em rádios e acompanhando calouros. Em 1941, no entanto, a convite de Ataulfo Alves, participa das gravações de “Leva Meu Samba” (composto por Ataulfo Alves) e da famosa “Ai, que Saudades da Amélia” (composto por Ataulfo Alves e Mário Lago).

1940 - Em 11 de maio Jacob casa-se com Adylia Freitas, sua grande companheira de toda a vida.

1941 - Em 3 de fevereiro nasce Sérgio Freitas Bittencourt, mais tarde compositor e jornalista, que veio a atuar como jurado no Programa de TV de Flávio Cavalcante por vários anos.

1942 - Em 8 de abril nasce Elena Freitas Bittencourt - mais tarde cirurgiã-dentista, a quem Jacob adorava e de quem foi um verdadeiro pai-coruja.

Os primeiros anos são difíceis, pois os cachês de rádio não são suficientes para o sustento do casal. É quando se revela a profunda amizade e o apoio do violonista e histórico compositor Ernesto dos Santos - o Donga - e de sua esposa a cantora Zaira de Oliveira pelo casal Bittencourt. Apoio pessoal e material que vêm em boa hora, pois, segundo Elena, sua mãe costumava comentar “eles mataram nossa fome algumas vezes”.

Mais experiente e conhecedor das dificuldades da profissão, Donga convence Jacob a prestar concurso público, idéia que o bandolinista abraça, pois sempre pretendera alcançar uma estabilidade que lhe permitisse realizar seus saraus e desenvolver sua arte sem ser obrigado a acompanhar cantores e calouros eternamente, isso sem mencionar o temor de perder sua independência em virtude das pressões das gravadoras. Dessa forma, por não querer fazer concessões à industria fonográfica, Jacob presta concurso e é nomeado Escrevente Juramentado da Justiça do Rio de Janeiro, mas continua tocando bandolim cada vez mais.

1947 - Lança seu primeiro disco como solista pela gravadora Continental, um 78 rpm com um choro de sua autoria - TREME-TREME, e a valsa GLÓRIA, de Bonfiglio de Oliveira, que fazem grande sucesso. É acompanhado por um grupo de músicos que com ele costumavam tocar nas estações de rádio. No rótulo do disco fica registrado “CÉSAR E SEU CONJUNTO”.

1949 - É contratado pelo selo RCA VICTOR, com quem permanece até o final de sua carreira. Grava cinqüenta e dois discos em 78 rpm, 12 LPs (dois ao vivo), e diversas participações em discos de outros artistas e coletâneas. Grava ainda um LP pela CBS. De 1949 a 1951 grava com os músicos da Rádio Ipanema, sempre com a presença de César Faria. A partir de março de 1951 até março de 1960, é acompanhado pelo Regional do Canhoto. Nesse período, em algumas gravações, Jacob é acompanhado por orquestras.

1955 a 1969 – É contratado pela Rádio Nacional, onde se apresenta com o Regional de César Moreno; retorna anos depois, quando marca época com o programa Jacob do Bandolim e seus Discos de Ouro, que fica em cartaz até seu falecimento. O último programa, gravado na véspera, não chega a ir ao ar.

1969 – Jacob não resiste ao segundo infarto e falece no portão de sua residência. Retornava da casa de  ídolo maior (Pixinguinha), onde tinha ido acertar o repertório de um disco seu só com músicas do amigo. Deixou a esposa, Adylia e dois filhos, a cirurgiã-dentista Elena, que preside o Instituto Jacob do Bandolim, e o compositor Sérgio Bittencourt.

 

Fontes utilizadas:

Entrevistas com Elena Bittencourt, Deo Rian, César Faria e Jorginho do Pandeiro.
Depoimento de Jacob do Bandolim ao Museu da Imagem e do Som - Rio de Janeiro (1967)
Arquivos do próprio autor

(*) Sergio Prata é músico e diretor do Instituto Jacob do Bandolim.

 

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