CHIQUINHA GONZAGA: ENTREVISTAS

 

Entrevista com Edinha Diniz - Outubro de 2007

Em outubro de 2007 a Choro Music teve a oportunidade de entrevistar Edinha Diniz, biógrafa oficial de Chiquinha Gonzaga. Veja abaixo:

Fale um pouco sobre você, onde nasceu e cresceu. Diga também como começou seu interesse pela Chiquinha Gonzaga.

Tudo começou com uma encomenda de Angela Cozetti Pontual, em 1977, para um roteiro cinematográfico. Ela havia produzido um disco sobre chorinho no ano anterior e descobrira essa compositora de músicas importantes do repertório do Choro. Ficou curiosa. Começou a investigar, decidindo então produzir um filme documentário sobre a Chiquinha Gonzaga. Foi quando eu apareci na história.

Antes de iniciar a pesquisa, eu só sabia que a Chiquinha Gonzaga era a autora da marchinha carnavalesca Ó Abre Alas, apenas isso. Como tenho formação em Sociologia, não foi difícil construir essa história, sobretudo com a ajuda de um acervo monumental e inédito que havia sido conservado na SBAT e hoje pertence ao Instituto Moreira Salles. Não foi difícil, mas foi demorado. A pesquisa consumiu seis anos e incluiu inúmeros outros arquivos para complementação dos dados de pesquisa, bem como viagens a São Paulo e Lisboa.

O interesse foi crescendo junto com a pesquisa. A farta documentação reunida me convenceu de que aquela história merecia ser revista e, principalmente, de que Chiquinha Gonzaga precisava ser compreendida. Achei que já era possível, àquela altura das conquistas femininas, retirá-la do esquecimento ao qual fora condenada por seu comportamento transgressor.

Conte-nos um pouco sobre sua formação acadêmica.

Minha formação é em Ciências Humanas, mais especificamente em Sociologia da Cultura. Durante um tempo, dividi-me entre o ensino na universidade e a atividade de roteirista de filme documentário. Foi nesse momento que Chiquinha Gonzaga apareceu em minha vida. Eu deveria apenas elaborar um roteiro sobre ela para o filme da Angela, mas a riqueza da documentação encontrada e a força da sua história me fizeram dedicar mais tempo à pesquisa e depois cuidar dos desdobramentos desse trabalho em múltiplas linguagens.

Sobre o processo criativo da compositora: quais os aspectos que mais a influenciaram; como era seu processo de criação?

Chiquinha Gonzaga produziu música de salão, mas a forma como ela incorporou  à sua música os sons da rua e trabalhou no piano essa fusão, garantem a ela um papel pioneiro no processo de abrasileiramento da música. O volume da sua obra e anotações em alguns manuscritos nos revelam muito da sua capacidade de trabalho. No final de uma partitura, por exemplo, ela registrou: “Arre!! são 3 e um quarto da manhã! estou cansada, vou dormir... felizmente acabei – os galos cantam”.

Que aspectos da obra e carreira da Maestrina Chiquinha Gonzaga mais contribuíram para a musica brasileira? Você poderia comentar um pouco sobre as contribuições que a Chiquinha trouxe para a sociedade/país através de sua arte?

A contribuição de Chiquinha Gonzaga à música brasileira foi decisiva porque, o trabalho de fusão que ela efetuou entre os gêneros encontrados, quando a música estrangeira dominava o país, ajudou a definir os rumos da música produzida no Brasil e a fixar uma rítmica brasileira. E como mulher, ela teve uma atuação importante nas lutas pelas liberdades e foi pioneira da emancipação feminina no país.

Que momentos que você pode identificar na vida da Chiquinha (que ela mesma possa ter declarado) como os de maior felicidade e também de maior dificuldade/tristeza? A compositora declarou em algum momento seus sonhos e frustrações?

Os momentos mais difíceis para Chiquinha, sem dúvida, foram os de enfrentamento do marido e do pai. Uma separação naquelas circunstâncias foi um ato de grande coragem. Mas ela estava apaixonada e isso ajudou a atenuar a ruptura. A segunda separação foi acompanhada de outro tipo de sofrimento e preconceito, já que ela precisou enfrentar o mercado de trabalho, em uma atividade inédita para a mulher, a música. Depois, lutou para estrear no teatro e, mais tarde, para defender seus direitos autorais. Na vida pessoal enfrentou dificuldades para assumir publicamente um relacionamento com um companheiro muito mais jovem, sofreu com o ressentimento de suas filhas, mas também sentiu o orgulho de completar jubileu artístico como maestrina e receber o reconhecimento pelo seu trabalho. Eu diria que ela enfrentou dificuldades ao longo da vida, mas sempre saiu vitoriosa. Afinal, ela é a autora de “Ó abre alas, que eu quero passar, eu sou da lira, não posso negar, Rosa de Ouro é quem vai ganhar”.

Sabemos que a Chiquinha era mulata. Como ela trabalhou essa questão racial em sua carreira profissional? Ela chegou a ser discriminada por isso?

Ela era mulata, sim; filha de uma mulata com um homem branco. O major Basileu, seu pai, descendia de uma família branca, gente de pele e olhos claros; e Rosa, sua mãe, de escravos, só não sabemos em que grau. O registro de batismo de Chiquinha, nascida bastarda, traz à margem a anotação: Francisca, inocente. Isso significa que era filha de mãe livre. No caso da mãe escrava, a designação para a criança era ingênua. Acontece que o major seu pai legitimou seu nascimento quando ela tinha 13 anos e talvez ela nunca tenha tomado conhecimento dessa certidão original. Quer dizer: ela pode não ter tido a consciência, mas certamente teve o sentimento da sua origem bastarda. Por que, afinal de contas, o que é que vai determinar a sensibilidade da artista Chiquinha Gonzaga senão esse conflito? Ou seja, acho que essa questão diz mais respeito à sensibilidade do que às condições externas de carreira.

Quanto à discriminação ou empecilho na carreira profissional, isso é uma falsa questão, pelo simples fato de que a atividade musical era exercida principalmente por negros e mulatos, familiarizados com a música e tendo possibilidades efetivas de ascender socialmente com a profissão. Esse é um assunto que discuto muito em meu livro: o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, a composição demográfica, o crescimento de uma camada social intermediária entre senhores e escravos, o incremento dos serviços urbanos, incluindo a música, e a contribuição do mulato para a nacionalização da cultura no Brasil.

 

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