ALTAMIRO CARRILHO: SIGNIFICADO DOS TÍTULOS DAS MÚSICAS COMPOSTAS
Altamiro Carrilho descreve abaixo o significado dos títulos das músicas deste songbook:
Guaracy - “Foi um concursozinho que eu fiz no meu tempo de rádio, na Rádio Mauá, segundo o qual quem quisesse mandar sugestões para o título daquela valsa poderia mandar por carta. Mas eu não pensei que fosse receber tantas cartas. Uma quantidade de cartas enorme, que eu tive que pedir a um ajudante para me ajudar. E dentre os vários nomes bonitos havia também uns nomes como Etelvina, ficava um pouco esquisito porque é um nome que está fora, está em desuso praticamente. Aí chegou essa aí, Guaracy, eu gostei porque é uma palavra indígena, lembra o tupi-guarani, e eu disse ‘Bom, vou ficar com essa Guaracy’. E outra coisa, quando eu fui conhecer a Guaracy que mandara aquela carta, era uma moça linda, tão bonita quanto a valsa.”
Frevinho Carioca - “Um pernambucano certo dia, num café, tomando uma cervejinha, disse ‘Tudo bem quanto ao chorinho, mas frevo? Só feito por nordestino, e sendo de Pernambuco, de preferência. Lá sim, se faz frevo.’ Eu disse a ele ‘Quer dizer que um carioca não pode fazer frevo?’ Ele disse ‘Ah, muito difícil, me mostra um!’ E eu disse ‘É pra já! Aí peguei a flauta e comecei a improvisar. Daí ele ficou espantado, me olhando como que a perguntar ‘Ué, isso já existe?’ E eu disse: ‘Não, estou fazendo agora. O carioca é tão burro pra fazer frevo que faz na hora, de improviso.’ A primeira parte saiu ali mesmo, na mesa do café.”
Bem Brazil – “Isso é porque eu sou acima de tudo um brasileiro sofredor, como todos os outros, mas muito feliz por ter nascido nesta terra, que considero a melhor do mundo. Eu não troco o Brasil por nada, então pode me oferecer uma coleção de flautas de ouro que eu não troco. Eu quero ser brasileiro, eu sou brasileiro e eu serei brasileiro até meus últimos dias.”
Beija-flor –“Eu vi um colibri, aquele pássaro que fica parado no ar como se fosse um helicóptero, sugando o néctar das flores, lá no jardim da minha tia, e eu achei aquilo muito interessante, eu era menino ainda, fiquei com aquela idéia – ‘vou fazer uma música com o nome de beija-flor’, e de repente fiz), me lembrou a estabilidade do vôo do colibri, do beija-flor, e sapequei lá.”
Flauteando na Chacrinha – “Flauteando na Chacrinha eu fiz em homenagem ao Chacrinha da TV, o famoso Abelardo Barbosa, que fazia um programa em uma chacrinha em Niterói, uma pequena chácara mesmo, o diminutivo está certo, Chacrinha. Ele fazia o programa sozinho, ele e o operador de som. Ele mesmo punha uma porção de bugigangas em cima da mesa, e ia pegando um guizo, um apito, uma buzina ...Alô Terezinha!, mas o programa não tinha prefixo dele mesmo, o prefixo era uma música estrangeira, se não me engano uma música grega, a única da qual se tinha o disco era essa, o resto era tudo disco que nem tocava mais, tudo chiando, 78 rpm! Eu havia gravado naqueles dias um choro que ainda estava sem nome, e eu disse: ‘Escuta aqui Abelardo, você aceitaria uma música minha em primeira audição como prefixo do seu programa? Nunca toquei em lugar nenhum, só gravei, recentemente.’ Ele disse: ‘depende da música, se for boa eu aceito.’ No dia seguinte eu levei lá, pois ele fazia o programa diário, mostrei a ele e ele disse: ‘Quero, pronto, já tá fechado! Vai ser o prefixo do meu programa.’ Nessa época ele era pobre ainda, não era o Chacrinha que parava o pessoal na rua não, ele estava começando.”
Aeroporto do Galeão – “Aeroporto do Galeão tem até uma historinha curiosa, eu ia pra Fortaleza pra fazer 2 shows lá no Teatro Fortaleza, e estávamos esperando o avião no velho Aeroporto do Galeão, não era esse Tom Jobim não, o antigo, que era Galeão mesmo. Aí tocou aquela sinetinha que tocava antigamente pra anunciar o vôo, e eu ouvi aquelas notinhas e elas ficaram no meu ouvido, na hora eu comecei a solfejar ‘isso dá choro’, falei pra turma. E a turma disse: ‘É, é capaz de dar.” E um sorriu pro outro, como dizendo ‘o cara tá pirando...’ Pois foi feito dentro do avião. Aí deu a segunda chamada pro nosso vôo, eu levei um papel de embrulho, improvisei um pentagrama já dentro do avião, já sentado no avião, e fui escrevendo e por aí foi, ao chegar em Fortaleza estava pronto o chorinho, com primeira e segunda partes. Aí eu aproveitei e toquei em primeira audição no Teatro lá em Fortaleza.”
Rio Antigo - “Rio Antigo foi quando o Rio de Janeiro completou 400 anos, e aconteceu que os paulistas lançaram lá o São Paulo Quatrocentão, e outro lançou o IV Centenário de São Paulo.. Eu, seguindo o exemplo dos paulistas, que homenagearam o IV Centenário de São Paulo, fiz o Rio Antigo para homenagear o IV Centenário do Rio. E aí foi muito elogiada a idéia de homenagear o Rio, e foi um sucesso enorme por isso. Uma vendagem inédita na época.”
Caco de vidro – “Eu ia passeando descalço, que eu gosto muito de andar descalço na casa da minha mãe em Niterói, onde ainda existe quintal, árvores frutíferas. De repente eu pisei num caco de vidro e começou a sangrar muito, então eu olhei aquele sangue assim, aquela dor que dá no início, aí arranquei o caco de vidro com raiva e joguei lá pro lado da árvore pra desaparecer da minha frente. Ele agarrou num galho da arvore, aí eu comentei assim ‘Cada mau-caco no seu galho’, e assim surgiu o chorinho Caco de vidro.”
Não resta a menor dúvida – “Esse foi feito em homenagem a um amigo meu que tudo que você falava pra ele, ele concordava ‘Não resta a menor dúvida!’ – você podia falar um troço com o qual ele não concordasse, e a resposta sempre era ‘Não resta a menor dúvida!’”
Chorinho do Rodrigo – “Esse eu fiz para o filho de um rapaz que tocava cavaquinho comigo; tocou durante alguns anos, depois não pôde tocar mais. Ele adoeceu gravemente, ficou meses em tratamento, e eu convidei um outro, que está comigo até hoje, o Maurício Verde do cavaquinho, do meu conjunto atual.”
Pra tia Amélia - “Tia Amélia foi uma pianista bem idosa, que ainda tocava com aquela idade, 92 anos, ela tocava com uma vibração de uma garota de 18 anos. É impressionante a vitalidade dela com essa idade, não sei, parece que a mulher era feita de aço inoxidável... então ela tocava uns maxixes daquele tempo, muito interessantes. E ela me disse: ‘Altamiro, você que é um grande compositor...’ e eu disse: ‘Eu não sou grande, mas sou compositor’. E ela: ‘Faça um maxixe para eu entrar dançando nos meus shows, enquanto você toca o prefixo. Pode ser uma coisinha pequena, parte pequena, mas que seja o meu prefixo.’ E eu disse: ‘Tá certo’. Fiz esse aí, Pra tia Amélia, e ficou tão de acordo com o que ela queria que ela deu pulos de alegria, ela esqueceu até a idade que tinha, 91 pra 92 anos, impressionante, e é muito simpática, falava com todo mundo, brincava com todo mundo.”
Vivaldino – “Vivaldino é uma palavra que na gíria brasileira quer dizer o indivíduo esperto, inteligente, malandro, e que no fim sofre mais do que a gente, por causa da malandragem. Mas de qualquer forma eu estava estudando um concerto de Vivaldi para gravar, com solo de piccolo, orquestra de cordas, sopro, trompas, etc. E no finalzinho, eu faço o aquele finalzinho do Vivaldi. Uma homenagem ao Vivaldi.”
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