CHORO MEETS RAGTIME: ENTREVISTAS

Entrevista com Bill Edwards

A Choro Music entrevistou Bill Edwards, que mora na Flórida, e  tem dedicado sua vida ao Ragtime.

Fale um pouco sobre sua vida como pianista, sobre como você começou e como o Ragtime se tornou uma paixão em sua vida.

Eu tinha cinco anos de idade e tentava fugir do clima de divórcio que reinava em minha casa naquela época. Mergulhava então nos discos de Paul Lingle, Lou Busch, Frankie Carle e Firehouse Five Plus Two que tinham ficado por ali depois da separação de meus pais. Aquilo me transportava para um mundo mais feliz do que a realidade que eu tinha à minha volta. Em alguns meses, depois de tentar reproduzir aquelas peças no piano de uma tia, minha mãe deu um jeito de me arrumar um piano. Enquanto estava aprendendo música clássica, eu sempre dava um jeito de tocar ragtime nas horas de folga. Quando o filme ‘Golpe de Mestre’ (The Sting) foi lançado, eu tinha 14 anos e já conhecia muitos dos ragsde Joplin, e ouvi-los orquestrados foi um prazer muito grande.

Em minha vida adulta, como músico e historiador, aprendi que quanto mais você sabe acerca do contexto de uma determinada música, inclusive acerca da arte de criação de capas, do local de publicação ou de composição, ou ainda do próprio compositor, etc., mais relevante esse contexto se torna como sua própria essência. Por outro lado, o fato de aprender sobre as vidas dos compositores e escrever sobre isso, como eu fiz, individualiza esses compositores, tornando-os mais acessíveis como pessoas. Muitos deles têm empregos maravilhosos no mundo da música, mas a grande maioria é feita de pessoas comuns, Josés e Marias tentando se expressar por meio de uma ou mais tentativas de compor criativamente. Como há muitas maneiras de não se ater aos limites do ragtime ao executá-lo, o próprio estilo de cada músico, bem como a maneira como eles interagem com uma platéia, também acabam por individualizá-los. Não é apaixonante?

 

Quando falamos sobre as origens do Ragtime, sempre encontramos a referência da Feira Mundial de Chicago World de 1893 como a data formal de surgimento. Sabemos que muito antes disso, pianistas brancos e negros já se encontravam como iguais no submundo dos botecos americanos e dos bairros de bordéis, fazendo concorrência uns aos outros, fazendo negócios e tomando emprestadas as tradições musicais de suas duas diferentes raças (estilos europeus e ritmos africanos). Qual sua opinião sobre isso?

Se por um lado a cidade de Sedalia, no estado do Missouri, é freqüentemente chamada de berço do ragtime (quando deveria ser um dos pontos de origem de publicação de ragtime), por outro existem menções desse estilo de música desde o tempo dos jornais negros em Indianápolis, em Indiana no início da década de 1890, e em Kansas City (tanto no estado do Kansas como no de Missouri), no final da década de 1880. O papel desempenhado pelos brancos na "composição" ou formação do ragtime, ao qual nem sempre é dada atenção, data dos últimos tempos da escravidão, até um pouco antes. Quando os músicos negros eram contratados para bailes, recebiam certos parâmetros acerca do que tocar, mas com muita freqüência pediam para tocar seguindo um determinado estilo, talvez seu próprio estilo. Dessa forma, a assimilação de formas brancas na cultura negra, tais como marchas, gigas, quadrilhas, etc., deu-se em parte por causa desses pedidos, mas também em parte por causa da exposição regular. O uso de polirritmia e sincopados foi talvez uma das maiores contribuições feitas pelos músicos negros a esse tipo de música. Como na realidade o ragtime não pode ser chamado de branco ou de negro, deveríamos designá-lo simplesmente Fusão Americana.

Quanto aos pianistas, não se conhecem muitos brancos que tocassem esse gênero de música no início, pois o preconceito existia também do lado deles. Veja, há bem pouco tempo, em meados dos anos 50, Elvis Presley muitas vezes foi duramente criticado por cantar “música negra” em seus shows. Músicos brancos que não tocavam nada além de cakewalks[1] moderados em meados da década de 1890 podem ter tido problemas para encontrar trabalho assim que ragtime começou a fazer sucesso, e era pequena a possibilidade de os negros contratarem orquestras negras, apesar de muitas pessoas brancas contratarem orquestras negras só para mostrar como eram progressistas. Os poucos pianistas brancos que fizeram isso ao final da década de 1890, e que interagiam diretamente com artistas negros trabalhavam no teatro do tipo Vaudeville, e eram geralmente muito versáteis e talentosos, tinham repertórios diferentes para serem usados com diferentes platéias. Mike Bernard e Ben Harney eram capazes de fazer uma platéia se apaixonar por eles, e em seguida tocar a música como se eles mesmos a tivessem inventado, o que retirava a maioria das possíveis sombras que pudesse haver sobre ela.

Sobre ritmos africanos: existem muito mais ritmos latinos no ragtime do que africanos. Na realidade, muitos deles tiveram que esperar o surgimento do jazz progressivo, na década de 50, para que acontecesse a fusão. O sincopado foi uma técnica utilizada por músicos latinos na América do Sul, na América Central e no Caribe. A habanera veio daí, e tem suas origens na África e na América do Sul. O sincopado geral, como os que encontramos em cakewalks, todavia, também era encontrado em algumas peças clássicas européias do início até meados do século XIX. Foi a fusão dessas fontes, repito, que culminou com o ragtime, e que evoluiu até o jazz. 

 

Sempre li biografias de Scott Joplin nas quais a data de nascimento era mencionada. Recentemente, li que na verdade não se sabe onde ele nasceu, nem a data do nascimento. Você já fez alguma pesquisa nesse sentido?

É, na verdade analisei as prováveis datas de nascimento de Scott Joplin juntamente com meu colega Ed Berlin. Acreditamos que potencialmente já tenha sido em novembro de 1867, pois há registros hospitalares de uma estadia ocorrida no início de 1868, e há um registro dele no censo de 1870. Mas no final, se por um lado seria ótimo esclarecer esse ponto, por outro isso não teria o mesmo efeito que outros esclarecimentos tiveram sobre compositores como Eubie Blake, que se descobriu ser quatro anos mais jovem do que ele na verdade declarava, ou Mike Bernard, que era nada menos que doze anos mais velho do que admitia. Esse esclarecimento mudaria a idade potencial de quando eles compuseram ou tocaram inicialmente, e faria uma grande diferença dentro do contexto da rapidez com que o ragtime progrediu. Um ano com Joplin significa muito menos em termos contextuais, excetuando-se o fato de que ele morreu ou aos 48 ou aos 49 anos, e isso foi muito cedo. Então, sabermos a data é mais uma questão de perfeccionismo do que qualquer outra coisa, e que não afeta quaisquer outros aspectos da linha do tempo a ele relacionada.

 

Seria correto dizer que o Ragtime influenciou diretamente o blues e o jazz? E que se não fosse pelo Ragtime, esses estilos não teriam existido?

Aqui está a minha visão do ragtime nos EUA e da música que se desenvolveu a partir dele. Imagine um funil gigante. No topo vamos alimentando o funil com marchas, gigas, rounds[2], polcas, quadrilhas, sonatas, habaneras, shanties[3], músicas folclóricas, etc. O centro desse funil seria o final da década de 1890 e daí daria para visualizar a mistura em que se transformou o ragtime. Imagine também um cordão que teria início na década de 1880 e viajaria diretamente até o centro do funil, atravessando-o. Esse seria o blues. O Ragtime e o blues se misturaram, mas ao mesmo tempo permaneceram como entidades separadas. O blues de Memphis é um rag, mas também é um blues, e a maioria dos rags tocados ao piano não tiveram associação com o blues, e muitos blues não têm nenhum vestígio de rag. No entanto, eles realmente tiveram muitas das mesmas influências.

Agora imagine o que está saindo do funil. O ragtime da West Virginia e do Kentucky transforma-se no bluegrass[4] e depois na música country quando surge em Bristol, na Virginia, em 1927. O Ragtime tocado ao piano viria a se transformar no novelty ragtime e em um piano mais ‘condimentado’ durante a década de 20, levando a toques de tecno-jazz nos anos 30 e até um pouco antes e influenciando diretamente Fats Waller e Art Tatum. O ragtime tocado por bandas mudou em 1916 com uma combinação de três instrumentos principais e uma seção rítmica que incluía três ou quatro instrumentos, que simplesmente repetiam uma parte de um determinado rag por meio de improvisações da melodia. Isso viria a se transformar no jazz tradicional. Aquele cordão de Blues permaneceria como uma entidade separada e independente nos anos 20, mas ao mesmo tempo ainda viria a se misturar com o jazz tradicional, criando o swing, uma música que dominaria o final da década de 30. Os pequenos conjuntos instrumentais então fundiriam o blues, o swing, a música popular e o tecno-jazz e os transformariam em bebop. O próprio swing se desenvolveria, no mundo musical, transformando-se em rhythm and blues, o antepassado direto do rock-and-roll.

Outro aspecto ao qual muitas vezes não se dá a devida atenção é o dos shows da Broadway. A maioria deles já começara a incorporar ragtime ou canções de ragtime em 1900, continuando até os anos 20. Enquanto alguns adicionavam jazz, o passo mais importante foi dado quando se começou a escrever na linha de canções orientadas por personagens, mantendo elementos das origens do ragtime e adicionando uma polirritmia interessante em alguns casos, criando uma forma de música que era parte popular e parte identificável com um personagem específico. Isso levou ao memorável musical Showboat, aos filmes Branca de Neve e os Sete Anões e O Mágico de Oz, e finalmente a Oklahoma, em 1942, o primeiro musical moderno a ser encenado no palco, inteiramente composto para um enredo específico, e não somente voltado para canções. Ainda assim, suas origens podem ser diretamente relacionadas a Eubie Blake, George M. Cohan e até a Florenz Ziegfeld, que incorporou muito ragtime em suas próprias extravaganzas.

Em termos de música que ouvimos no mundo ocidental nos dias de hoje, virtualmente tudo pode ser diretamente relacionado ao ragtime. A principal exceção seriam as trilhas sonoras de filmes, que por suas próprias características não se enquadravam no uso de peças clássicas ou baseadas em temas - alguns padrões da Broadway. Desde a incorporação de temas clássicos a desenhos animados, feita por Carl Stalling, e do trabalho de Elmer Bernstein e seus arrebatadores temas de faroeste dos anos 40 e até um pouco antes disso, hoje temos John Williams, Danny Elfman, Hans Zimmer e muitos outros que nos proporcionam um novo tipo de fusão, cujas raízes podem ser encontradas muito mais em Beethoven e Stravinsky do que em compositores de ragtime. Caso contrário, a origem da maioria da musica ocidental que se ouve hoje em dia na mídia pode ser de alguma forma relacionada ao ragtime.

Quanto ao jazz não ter existido – essa é uma questão difícil. O que aconteceu foi simplesmente uma evolução direta do ragtime, e isso poderia eventualmente ter acontecido. Parte desse processo é normalmente conseguir chegar aos ouvidos de um público acostumado a alguns pequenos avanços na música, ou pelo menos de um público que os aceite. Stravinsky passou dos limites quando compôs a Sagração da Primavera em 1912, e para muitos foi simplesmente mudança demasiada combinada a alienação, tudo ao mesmo tempo. Richard Strauss também teve muitos detratores. Mas aqueles que adaptaram o que já era familiar a alguma coisa diferente, tais como os pioneiros do jazz, normalmente ganharam maior aceitação. Como a base do jazz é a improvisação, é difícil dizer se esse gênero não teria existido sem o ragtime, especialmente se analisarmos o ‘Modern Jazz Quartet’ e verificarmos quanto da música de Bach eles utilizaram em seu trabalho. Portanto, no que se refere ao jazz eu daria a essa pergunta uma resposta de 50% de chance de ter acontecido, mas teria que deixar aberta a possibilidade da difícil pergunta – que tipo de jazz teria surgido?

 

Quando o Ragtime explodiu em 1900, foi duramente criticado por algumas pessoas da sociedade e pela elite musical daquela época. Por exemplo, na convenção da Federação Americana de Músicos de Denver de 1901, "convencionou-se caracterizar o 'ragtime' como 'lixo não-musical'. Os membros da convenção foram exortados a 'fazer todos os esforços para suprimir e desencorajar a execução e a publicação desse lixo musical." (Brooklyn Daily Eagle, 14/5/1901, 1)

Por que o Ragtime passou de "gênero mal-afamado de música" a ter aceitação mundial, a ponto de ser tocado regularmente por todos os tipos de músicos, inclusive os de formação clássica? Alguma comparação com a música Rap dos dias de hoje?

A resposta é assimilação. Estaremos lidando com essa questão durante os próximos meses, neste país, com um Presidente negro no poder. Será difícil para algumas pessoas se acostumarem, mas elas conseguirão. É como usar a internet, dirigir um carro, saber o que está passando na televisão, colocar som em um filme, saber os passos da dança da moda, etc. É também uma questão de sobrevivência. Os sentimentos despertados naqueles que ouviram o ragtime pela primeira vez foram talvez muito fortes para serem assimilados por muitas pessoas, pois ou lhes dava um prazer que algumas outras formas de música não lhes dava, ou então eles achavam muito dissonantes. Contudo, depois de ouvir o bastante (e o ragtime estava por toda a parte, então não era difícil de se ouvir)  o ouvido e a mente se compatibilizavam mais com a música. O cakewalk foi uma forma mais branda do que estava por vir, com seu sincopado simples e dentro do compasso. O sincopado do Ragtime quase sempre extrapolava os limites dos compassos, e muitas vezes demorava para as pessoas se acostumarem com a estranha justaposição do sincopado da mão direita e da polirritmia com a esquerda, ou com o acompanhamento da banda em ritmo binário. Mas quando você retira grande parte do que está no mercado, ou então inunda o mercado com alguma outra coisa, freqüentemente torna-se moda pela simples força da exposição.

Quanto ao fato de os músicos tocarem o ragtime, bem, depois de o público ter declarado que queria o ragtime mais do que qualquer outra coisa, eles tiveram que se adaptar ou morrer. Se você não estivesse tocando regularmente em alguma sinfônica ou em alguma outra orquestra, teria que aprender a ler os ritmos do ragtime para conseguir encontrar trabalho, ou então teria que começar outra carreira. Sobrevivia quem tocasse. Um dos casos mais contundentes que exemplificam isso aconteceu em Detroit, Michigan. Fred S. Stone ajudava na administração de um sindicato razoavelmente grande de músicos negros, e chegou um ponto em que havia muitos músicos brancos fazendo lobby para conseguir entrar naquele sindicato, simplesmente para poder encontrar trabalho, pois o sindicato dos negros estava conseguindo a maioria dos trabalhos tocando ragtime, música para dançar e até alguma música clássica.

Quanto ao rap – tente encontrar a letra de Maple Leaf Rag e repita-a em voz alta. "Oh go 'way man, I can hypnotize 'dis nation, I can shake de Earth's foundation wid de Maple Leaf Rag." (Ah, vá embora, cara, eu posso hipnotizar essa nação, posso chacoalhar as entranhas da Terra com o Maple Leaf Rag). Funciona como se fosse rap, como também o fizeram muitos dos coon songs[5] iniciais Os músicos muitas vezes as recitavam com a música tocando ao fundo, se não conseguissem entender direito como cantar a letra. Havia muitas coon songs – escritas por ambas as raças – que eram um tipo de material que falava muito abertamente de certos assuntos, o que não deixa de ser um rap diferente, falando sobre transgressões sexuais e violência praticada com lâminas de barbear. O rap é uma evolução do ragtime e da raça negra, que sempre foi líder nesse sentido. Seja o que fosse que eles apresentassem como novidade musical e que se tornasse popular, os músicos brancos logo tentavam fazer parecer que tinha sido obra deles. Dessa forma,os negros queriam sempre estar à frente e continuaram a criar novos estilos musicais. O rap não é muito mais do que poesia assimétrica altamente rítmica colocada dentro de uma batida, e algumas das primeiras canções do gênero, muito embora tivessem mais simetria, eram muito semelhantes entre si. Considere também que o rap é mais um meio de performance e que o ragtime é mais um meio historicamente publicado, mas que ainda assim eles têm essa relação.

[1] Cakewalk: dança rural com movimentos alegres, executada por negros ao som do banjo. Os melhores dançarinos ganhavam um bolo como prêmio.

[2] Round: canção em forma de cânone.

[3] Shanty: canção com refrão entoada por marinheiros para ajudar no trabalho feito em um navio.

[4] Bluegrass: tipo de música folclórica originária do sul dos Estados Unidos, tipicamente tocada por banjos e violões, e caracterizada por andamento rápido e improvisação do tipo usado no jazz.

[5] Coon song: gênero de música popular nos Estados Unidos de 1880 a 1920, que apresentava uma imagem racista e estereotipada dos negros.

 

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