CHORO MEETS RAGTIME: COMPOSITORES

Scott Joplin

Apelidado de "O Rei dos Compositores de Ragtime" logo no início da carreira, ganhou esse título com diligência, inovação e puro talento. Apesar de não ter sido inteiramente responsável  por ajudar a reduzir muitas das barreiras que bloqueavam o acesso de compositores negros ao sucesso, Joplin foi um líder nesse aspecto, ainda que de maneira passiva.

Joplin nasceu perto de Linden, a leste do Texas. A data real de nascimento permanece desconhecida, e a data mais comumente aceita - 24 de novembro de 1868 - foi sugerida por sua última esposa Lottie, apesar de existir grande possibilidade de o nascimento ter ocorrido entre 19 de julho de 1867 (segundo o censo realizado em 1870, em que Joplin consta como tendo dois anos de idade) e meados de janeiro de 1868, segundo o historiador e biógrafo de Joplin, Ed Berlin. O censo de junho de 1880 o incluiu como tendo doze anos de idade, reforçando ainda mais essa probabilidade, e o censo realizado em 1900 o menciona com uma data de nascimento em outubro, apesar de no ano de 1872, o que representa uma curiosidade para determinadas pessoas.

Scott Joplin cresceu durante as incertezas da era da reconstrução. Seu pai, Giles Joplin (às vezes com a ortografia Jiles), era um escravo que fora libertado antes da Guerra Civil, e sua mãe, Florence, já nascera livre. Durante os primeiros anos da vida de Scott seus pais trabalhavam como agricultores arrendatários. Com o crescimento da família, seu pai conseguiu um emprego na ferrovia em Texarkana, e sua mãe começou a trabalhar como faxineira. Ambos eram muito musicais, e Scott aprendeu a tocar banjo ainda muito pequeno. Seu óbvio talento musical levou-o a conseguir aulas de piano gratuitas, dadas por professores da região. Aos doze anos já era competente tanto em interpretação como em composição musical. Seu pai abandonou a família por volta dessa época para viver com outra mulher, mas permaneceu envolvido com a vida de Scott, se bem que de forma mínima. Ele é citado no censo realizado em 1880 como ainda vivendo com a família como trabalhador não qualificado, o que leva a crer que ele deva tê-los deixado ao longo desse mesmo ano. O mesmo registro menciona Florence e o filho mais velho, Monroe, trabalhando também, e cita Scott e Robert como alunos matriculados na escola. O mais jovem dos Joplin, Johnny, tinha apenas três meses quando o censo foi realizado, em meados de junho. Scott ajudou a mãe a criar os irmãos, mas nunca abandonou sua paixão por música. Ed Berlin sugere que durante um período de sua adolescência, provavelmente dos treze aos dezenove anos, ele tenha vivido em Sedalia com um parente, mas acabou voltando a Texarkana, deixando de vez a casa da família por volta dos dezenove ou vinte anos.

Scott passou alguns dos próximos anos como pianista itinerante, desenvolvendo seu próprio estilo e, ao mesmo tempo, absorvendo influências de outros músicos do meio-oeste americano. Passou um grande período em St. Louis e foi para a Exposição Mundial Americana de Chicago (Feira Mundial) de 1893. Foi ali que o ragtime, então vivendo seus primórdios, foi muito provavelmente ouvido pela primeira vez pelo público e por muitos outros músicos. Após a feira, Joplin formou várias bandas e grupos vocais, inclusive o Texas Medley Quartette, no qual cantavam dois de seus irmãos mais novos, Robert e Will. Em 1897, após permanecer um pouco mais em St. Louis, Joplin foi passar um tempo em Sedalia, no Missouri, um passo que mudaria sua vida. À época já um compositor com músicas publicadas, algumas de sua autoria, freqüentou a faculdade George R. Smith (fundada para incentivar a educação superior para negros americanos) com o objetivo de desenvolver seu conhecimento musical. Foi provavelmente ali que Scott aprendeu como anotar musicalmente, com mais exatidão, as partituras do sincopado, o que para ele era imperativo, quando queria anotar corretamente suas composições de ragtime para possibilitar que outros as tocassem. Joplin tocou em vários locais da região durante essa época, tanto como solista como acompanhando ao piano ou ao cornetim grupos musicais de vários tamanhos. Foi em 1899, enquanto trabalhava em um desses locais - o clube Maple Leaf Club (que teve uma breve existência), que ele supostamente conheceu um de seus maiores protetores, o editor John Stark, e encontrou o título de seu primeiro rag verdadeiramente inspirado.

Stark ficou tão impressionado com a música Maple Leaf Rag, composta por Joplin, que prontamente a publicou, dando ao compositor um royalty de um centavo de dólar por cada cópia, o que era raro à época, ainda mais se levarmos em conta que Joplin era um compositor negro trabalhando com um editor branco. Considerando-se que foi provavelmente um advogado amigo de Joplin quem o ajudou a fazer o contato com Stark e a preparar o contrato, esse pode ter sido um fato estabelecido de comum acordo entre eles, que não somente garantia proteção para ambos mas também viria a modificar a situação financeira de Joplin, permitindo-lhe dedicar mais tempo para seu lado de compositor. Stark adicionalmente incentivou Joplin a trazer-lhe mais composições, entre as quais Sunflower Slow Drag, que deve ter sido composta por volta dessa época.. Maple Leaf tornou-se sucesso regional quase imediatamente, e durante as duas décadas que se seguiram tornou-se o primeiro piano rag a vender um milhão de cópias, segundo consta, apesar de não se contar com uma informação precisa quanto à data em que essa marca foi alcançada. Embora o relacionamento entre Stark e Joplin viesse a se deteriorar durante boa parte dos dezoito anos que se seguiram, o editor sempre promoveu os trabalhos de Joplin como os melhores de seu catálogo. Esses períodos de animosidade entre os dois foram em parte demonstrados pelos vários nomes de editores que constavam ao final de cada novo rag composto por Joplin.

De acordo com o censo realizado em 1900 Joplin era músico, e a data de seu aniversário foi curiosamente colocada como sendo outubro de 1872, sua idade declarada sendo, portanto, 27. Ele estava morando na casa da Susan H. Hankins, que também hospedava Belle Hayden Jones, que recentemente ficara viúva  e era cunhada de um de seus jovens alunos, Scott Hayden. Pouco antes de se mudar para St. Louis em 1901, Joplin (conforme sugerem algumas teorias) possivelmente se casou com Belle, e o casamento pode ter sido realizado de acordo com as normas do direito comum, sem cerimônia oficial. Em 1902 Joplin se desentendeu com Stark por causa da edição de um extenso balé musical de rag desenvolvido para ser apresentado em palco ou eventos sociais, que já tinha sido comprovadamente apresentado em 1900, na cidade de Sedalia. Com má vontade, Stark editou essa longa versão do The Ragtime Dance que já tinha sido orquestrada e executada em St. Louis, e sua aceitação deveu-se muito à intervenção de sua filha Eleanor, mas o resultado não foi bom, exatamente como previa Stark. Ainda assim, com os lucros de outros rags de seu catálogo, John Stark conseguiu abrir uma loja e uma editora musical em St. Louis, e mais tarde um escritório em Nova York, durante alguns anos. Joplin escreveu uma ópera de ragtime que acabou de compor em 1903, chamada A Guest of Honor (Um Convidado de Honra, provavelmente baseada em uma visita formal feita por Booker T. Washington ao Presidente Roosevelt, na Casa Branca), e viajou em tournée com a peça por um curto período, que incluiu o final do verão e o outono de 1903. Apesar de não se ter redescoberto nenhuma partitura, o que restou potencialmente permanece na forma de um rag e uma marcha, e pelo menos alguns títulos são conhecidos. Joplin e Belle se desentenderam por algum tempo em St. Louis, e após terem uma menina que faleceu com dois meses, o casal não conseguiu se reconciliar. Belle mais tarde se mudou de St. Louis e viveu até mais ou menos 1930.

Em algum período após o fracasso financeiro da tournée de Guest of Honor, Joplin passou alguns meses em Chicago antes de retornar a St. Louis. Quando a Feira Mundial de 1904 foi inaugurada no final de abril, ele estava provavelmente de volta a Sedalia para passar algum tempo. Em algum período dessa época veio a  conheceu uma jovem de dezenove anos, em Little Rock, por quem se apaixonou. Casou-se com Freddie Alexander, a quem tinha dedicado a primeira edição de Chrysanthemum, no final de junho, viajando de volta para Sedalia com ela e tocando em concertos por todo o caminho. Contudo, assim que chegaram a Sedalia em julho, Freddie caiu de cama por conta de um resfriado que acabou se transformando em pneumonia e que a levou à morte no início de setembro. Essa perda desencadeou um período de declínio compositivo e possivelmente de depressão para o compositor, que logo se mudou de volta para St. Louis. As edições subseqüentes de Chrysanthemum também tiveram a dedicatória removida. Nessa época, John Stark tinha aberto uma loja em Nova York, num esforço para competir com os grandes editores que estavam lançando, de acordo com sua convicção,  ragtimes inferiores aos constantes de seu catálogo. Joplin acabou seguindo Stark para Nova York em 1907, de onde nunca mais saiu para retornar ao meio-oeste.

Alguns dos trabalhos mais bem desenvolvidos de Joplin datam desse período de 1907 a 1910, demonstrando uma versatilidade de ragtimes clássicos e também uma variedade de texturas que puderam ser conseguidas dentro daquela estrutura. Foi nessa época que ele conheceu Lottie Stokes e supostamente casou-se com ela, apesar de mesmo as datas aproximadas desse acontecimento não serem claras. Joplin consta do censo realizado em abril de 1910 como músico e compositor sediado em Manhattan, além de viúvo, o que corresponde ao fato de ter perdido Freddie. A data do casamento como sendo junho daquele ano, conforme indicado por Brun Campbell, seria mais consistente com a linha do tempo, mas inconsistente com outros fatores, como o fato de ela estar usando seu nome de solteira em um documento oficial datado de 1913. Provavelmente o casal nunca foi formalmente casado, mas ela aparece como Lottie Joplin a partir do censo de 1920. Há alguma possibilidade de que Lottie, nascida e criada em Washington DC, já fosse casada antes de ter se mudado para Manhattan para administrar sua pensão, o que explicaria porque é tão difícil encontrá-la antes de 1913, quando os dois já estavam obviamente tendo um relacionamento íntimo.

O trabalho continuo de Joplin em um projeto que já tinha em mente há muitos anos consumiria muito do restante de sua vida. Ele acreditava tanto nessa ópera sincopada Treemonisha que colocou tudo que tinha no projeto, emocional e financeiramente. Era muito difícil obter apoio e financiamento porque muitos investidores estavam envolvidos com shows na Broadway que ofereciam música mais popular, e os que investiam em ópera preferiam projetos mais seguros. Treemonisha é uma história adiante de seu próprio tempo, pois envolve liderança feminina e contém uma ponderosa mensagem de educação como meio de obtenção de respeito e direitos iguais para todos, mas acabou tendo somente uma apresentação para candidatos a investidores em 1911, com Joplin tocando em lugar de uma orquestra em um palco sem cenário. (Treemonisha foi levada ao palco com êxito pela primeira vez em 1972, conforme originalmente concebida, com uma apresentação completamente re-orquestrada feita em 1975 pela Grand Opera de Houston).

Emocionalmente abalado e mentalmente afetado pelo início da sífilis, Joplin passou seus últimos anos, especialmente a partir de 1915, em lenta deterioração física, sofrendo de um início de demência. No início de 1916 participou de pelo menos suas sessões diferentes, quando gravou vários títulos para formato de piano de rolo, inclusive Maple Leaf Rag, Ole Miss Rag, de W.C. Handy e sua valsa Pleasant Moments. Com exceção de uma delas, as demais músicas não são indicadores que mostram com exatidão como ele estaria tocando nessa época, pois foram obviamente editadas para corrigir o andamento e outros erros. A exceção fica por conta de uma das execuções de sua Maple Leaf Rag, que por vezes soa irregular e hesitante, mas que também pode ter sido editada, até certo ponto. Sem a ajuda de uma gravação em áudio é difícil determinar exatamente como ele tocava, e mesmo entre os anos de 1914 e 1916 haveria algumas diferenças significativas. Joplin finalmente sucumbiu à doença em 1 de abril de  1917, seis semanas após ter sido internado no Bellevue Hospital. Lottie Joplin se arrependeu por muito tempo por não ter atendido ao pedido insistente de seu marido para que Maple Leaf Rag fosse tocada em seu funeral. Apesar de tudo, sua musica permanece como parte da história da música  americana, e suas contribuições não somente aos negros americanos mas a todos os americanos permanecem há anos.

O destino dado a alguns dos papéis e trabalhos que restaram de Joplin, inclusive alguns manuscritos não publicados, ainda permanece envolvido por um certo mistério. Isso inclui a situação de A Guest of Honor, mas também alguns rags ou músicas que não foram terminados. Diz-se que o historiador Rudi Blesh viu alguns deles quando visitou Lottie durante as entrevistas feitas em 1949 para They All Played Ragtime, e anotou alguns dos títulos, muitos dos quais constam das relações incluídas nesta biografia. Ainda não se sabe o que ocorreu àquela caixa de papéis, mas as especulações variam, às vezes mencionando que deve ter sido roubada, ou acidentalmente deixada no lixo, ou até simplesmente adquirida por um novo dono do prédio que pode tê-la descartado sem saber o que havia dentro. A descoberta mais importante após sua morte foi Silver Swan Rag, que existia somente em formato para piano de rolo. Não se deu muito crédito à cópia inicial encontrada no final dos anos 60, mas assim que se soube que poderia ser um rolo de Joplin, outras cópias apareceram com a atribuição correta do crédito. Novas informações aparecem de tempos em tempos, mas a maior parte do que sabemos acerca da vida de Joplin foi provavelmente descoberta recentemente, e uma das melhores coleções foi detalhada em King of Ragtime, do Dr. Edward Berlin. Mas muitas descobertas ainda devem ser feitas por gerações futuras, que talvez encontrem novas maneiras de interpretar suas peças ou que talvez venham a analisar outros materiais que ainda não apareceram.

Muitas das melhores e mais exatas informações sobre Scott Joplin podem ser encontradas no muito bem pesquisado e admirável livro King of Ragtime, do Dr. Edward Berlin, que pode ser encontrado em minha página  'Books on Ragtime'. Se você tiver algum interesse em Joplin ou ragtime, esse livro deveria fazer parte de sua biblioteca.

 

Joe Lamb

Joe Lamb era filho de imigrantes irlandeses católicos e nasceu em Montclair, New Jersey. Um dos quatro filhos de James e Julia Lamb, que também tiveram James Jr., Catherine e Annostesia, desde cedo recebeu do pai treinamento no ofício de carpinteiro. Aos oito anos recebeu algumas lições informais, o único treinamento real em música que  recebeu de suas irmãs mais velhas, que eram talentos promissores em instrumentos de teclado. Lamb também estudou pela popular revista Americana ‘Etude magazine’, que trazia muitos trabalhos clássicos e algumas peças populares leves. 

Aos treze anos, James Lamb faleceu, e Joe em seguida foi enviado ao St. Jerome College, em Ontário, para receber treinamento na área de engenharia. Contudo, não conseguiu se afastar da música, e começou a ter aulas com um padre, na escola. Essas aulas, no entanto, só duraram algumas semanas, pois Joe percebera, baseando-se em seu próprio treinamento autodidata e nas lições que já recebera anteriormente  das irmãs, que o padre não tinha muito mais a lhe ensinar. Começou também a compor enquanto vivia em Ontário, e teve contato com algumas das músicas alemãs freqüentemente tocadas em Berlim (atualmente chamada Kitchener), uma cidade próxima da escola. A maioria de suas primeiras peças não era do gênero ragtime, e nos primeiros anos do novo século foi publicada em Toronto como sendo de autoria de Josef F. Lamb, um nome germânico que soava mais clássico. Uma das primeiras composições, Muskoka Falls, foi iniciada quando ele tinha quatorze anos (e terminada pelo autor em 2006), uma resposta óbvia à muito popular Hiawatha, de Charles Daniels (1902). A canção faz menção a uma área recreativa desenvolvida para os mais ricos, ao norte de Toronto. Em uma época o dormitório da escola ficou indisponível por um tempo, então ele se hospedou na pensão chamada Walper House, em Kitchener, a uns 80 quilômetros a oeste de Toronto, sobre a qual ele escreveu um de seus primeiros rags. Considerando-se que sua exposição ao ragtime verdadeiro foi de alguma forma limitada a esse tempo passado no Canadá, sua sensibilidade musical fica ainda mais marcante se verificarmos que ele foi capaz de gravar uma peça com a qualidade de Walper House Rag, e sua subseqüente gravação de 1905, Ragged Rapids Rag. Outros trabalhos notáveis incluíram Celestine Waltzes e Lilliputian's Bazaar, que tal como os outros foi vendido imediatamente ao editor Harry H. Sparks em Toronto, mas muitas dessas obras não foram publicadas até bem depois de Lamb ter deixado o Canadá. Como era de praxe à época, num esforço para impulsionar as vendas dos compositores constantes de um catálogo, a obra de Lamb foi publicada sob no mínimo dois outros pseudônimos, Harry Moore e Earl West

Aos dezesseis anos, após conseguir um emprego trabalhando para uma empresa de aviamentos em Nova York, ele abandonou de vez a escola. Com o tempo, foi trabalhar para uma editora em Manhattan, ainda compondo nas horas livres e conseguindo umas poucas publicações. Então aconteceu seu oportuno encontro com seu ídolo, Scott Joplin. Lamb só recentemente fora exposto aos clássicos rags do "Rei do Ragtime", mas rapidamente começou não somente a aprender com eles, mas a seguir o exemplo dado por esses trabalhos para fazer suas próprias obras. De acordo com Lamb, ele se encontrava no escritório da editora de John Stark comprando alguns dos trabalhos mais recentes de Joplin no início de 1908. Antes de sair, ele expressou seu desejo de conhecer o mestre em alguma ocasião, e o funcionário apontou para um homem com uma perna coberta por um agasalho, sentado do outro lado da sala. "Lá está ele". Lamb ficou encantado, e após cumprimentá-lo e contar-lhe de sua admiração, disse a Joplin que estivera também escrevendo ragtime. Joplin então convidou Lamb para tocar o rag Sensation para ele naquela noite, em uma reunião. Quando Lamb terminou o número o salão, repleto de amigos de Joplin, ficou em silencio. Então Joplin disse: "Isso soa como um bom rag negro", que era tudo que Lamb queria ouvir. Dessa forma, Joplin conseguiu que Stark publicasse Sensation, que pagou ao compositor US$25, além de prometer-lhe outros US$25 após a venda das primeiras mil cópias. Um segundo pagamento foi realmente feito algumas semanas depois, mas nada além disso em relação a esta primeira e real alegria. Mesmo assim, John Stark publicou quase tudo que Lamb lhe enviou a partir desse ponto, mesmo após o editor ter voltado a St Louis dois anos depois. 

Em 1910 Joe Lamb consta como vivendo com Catherine e sua mãe Julia, mas com a profissão de assistente, provavelmente junto ao editor musical J. Fred Helf. Casou-se pela primeira vez em 1911, quando se mudou de Montclair para o Brooklyn. Lamb teve uma orquestra de ragtime de mais ou menos 1906 até 1911, denominada Clover Imperial Orchestra, que se manteve razoavelmente ocupada durante essa época, tocando em pequenas reuniões, como por exemplo em reuniões sociais de igrejas. Também fez alguns arranjos para Helf, mas além disso certamente produziu algumas das melhores peças de ragtime escritas durante os anos 10. Em 1914 conseguiu um trabalho diário com a filial financeira de uma importadora, L.F. Dommerich & Company, e a partir daí a música foi relegada ao status de hobby sério. O primeiro filho do casal, Joseph Lamb Junior, nasceu em 23 de julho de 1915, por volta da época em que o ambicioso ragtime Nightingale foi publicado. No ano seguinte Lamb publicou um de seus melhores rags. Originalmente chamado Cotton Tail, foi lançado por Stark com o título Top Liner Rag para adaptar-se a um trabalho de capa que já havia em estoque e estava disponível. Lamb posteriormente retrabalhou a peça, transformando-a no mais rico e refinado Cottontail Rag, lançado em meados dos anos 60, após sua morte. Seu registro militar o cita vivendo em West Brooklyn e empregado por Dommerich como Assistente de Alfândega, sem nenhuma menção aos seus lados de compositor ou músico. Henrietta faleceu na grande epidemia de gripe, perto do final da Primeira Guerra Mundial, em 1920, deixando-o sozinho com Joe Junior. Em 1919 Stark publicou o ultimo dos trabalhos de Lamb que apareceria em seu catálogo, o eclético Bohemia Rag. Para o censo realizado em 1920 ele consta novamente como músico, mas trabalhando como Gerente de Banco de Dommerich. Ainda assim, Joe ainda estava compondo, mesmo que somente para não abandonar sua grande paixão. 

Lamb casou-se uma segunda vez, com Amelia, em 1922. Mudaram-se para uma casa no Brooklyn, onde ele viveria até o final da vida. Sem mais apresentar novos rags para Stark, ele ainda escreveu alguns rags e canções, mas a maioria delas guardou em uma pasta ou baú em casa. Por volta dessa época ele foi procurado pela Mills Music para escrever algumas novidades para piano. Uma delas, intitulada Hot Cinders, acabou só sendo publicada após a morte de Lamb, mas não fez feio frente a outras novidades lançadas na época. Entre as demais peças mencionadas, mas que vieram a se perder perderam em algum ponto dos anos 30, estão Ripples, All Wet, Chime In, e Soup and Fish. De mais ou menos 1928 a 1935, Lamb se apresentou regularmente com minstrel shows (espécie de revista apresentada por atores brancos, maquilados de pretos) apresentadas na Igreja Católica St. Edmonds, no Brooklyn. Se por um lado ele fornecia a maior parte do material e participava dos ensaios, por outro, evidentemente, não atuava nos shows. Os Lamb são citados no Brooklyn em 1930 como uma família de seis membros, inclusive Joe Jr., Patrícia, Richard e Robert. Lamb foi citado como gerente de uma empresa de importação, que era provavelmente a Dommerich. 

Em 1949 quando o livro They All Played Ragtime estava em fase de pesquisa, o paradeiro de Lamb era desconhecido pelos autores, Harriet Janis e Rudi Blesh. Contudo, Joe Lamb sabia exatamente onde estava, assim como as demais pessoas que leram o livro, que foi publicado em 1950, e logo foi procurado por muitos fãs de ragtime, tanto jovens como de mais idade. Joe aposentou-se de sua carreira financeira junto à Dommerich em 1957, pouco depois da época em que foi "redescoberto”. Foi então que ele tirou uma série de rags de onde os mantivera guardados, compostos a partir dos anos 10 até datas mais recentes, e os gravou em duas ocasiões diferentes, que ficaram para a posteridade. Uma das sessões de gravação foi feita para ajudar um jovem chamado Mike Montgomery, recentemente chegado da Alemanha com seu novo gravador de fitas e calorosamente recebido na casa dos Lamb para um concerto noturno promovido pelo compositor. A segunda sessão, também importante e igualmente realizada em sua casa, foi gravada pelo historiador Sam Charters, e lançada em vinil nos anos 70. Essa gravação incluiu alguns dos melhores trechos de conversas recordando os anos do ragtime. Lamb até tocou como solista em seu primeiro e único show de jazz remunerado, realizado no Club 76 em Toronto no final de 1959, graças aos esforços de Bob Darch, John Arpin e outros. 

Após um breve período de fama e admiração generalizada, Joseph Lamb sucumbiu a um ataque do coração sofrido em casa, em 1960. Muitos dos rags não publicados foram finalmente impressos em 1964, sendo acrescentados, assim, ao grande legado da beleza potencial do ragtime percebido por todos nós, embora eles agora estejam fora de catálogo desde o início dos anos 90. Felizmente, muitos outros rags e canções interessantes compostos ao longo de toda sua carreira foram publicados, muitos pela primeira vez, em 2005, graças aos esforços de sua filha Patricia Lamb-Conn e a intérprete Sue Keller, do Ragtime Press de Chicago. Sue também fez gravações importantes de muitos desses trabalhos, e este autor fez também sua própria versão de mais um deles. Joseph Lamb, obviamente, nunca será esquecido. 

Em termos de legado, os rags de Lamb ainda constam dentre os mais tocados por aqueles que ou estão descobrindo o ragtime ou tem tocado sempre esse gênero. Adotando as melhores idéias de Joplin, ele foi capaz de desenvolver frases até mais longas em cada sessão, com um complicado equilíbrio harmônico na progressão de acordes e uma utilização inovadora de linhas melódicas internas, além de complicados sincopados. O fato de que tenha feito tudo isso com o pouco treinamento musical que teve, além do fato de ter crescido isolado da maioria da produção e interpretação do ragtime, torna seu trabalho ainda mais extraordinário. Lamb também foi capaz de produzir algumas músicas ótimas e algumas outras peças que não eram do gênero ragtime. Todavia, vai ser mais bem lembrado por sua produção de ragtime, uma paixão que o manteve compondo até quase o fim de sua vida. 

Gostaria de adicionar uma nota pessoal de agradecimento à filha de Lamb, ainda viva, Patricia Lamb-Conn, à intérprete e editora de ragtime Sue Keller e ao pesquisador Ted Tjaden, que de várias maneiras forneceram informações adicionais sobre a família e as origens de Lamb, bem como nos proporcionou conhecer e colher impressões de muitas de suas peças anteriormente desconhecidas, algumas das quais ainda continuaram a aparecer em 2008. 

 

James Sylvester Scott

James Sylvester Scott (Jr.) foi o único, entre os grandes compositores de ragtime, que cresceu a sudoeste do estado de Missouri, na área próxima à cidade de Carthage. Nascido no estado de Missouri, foi um dos seis filhos do ex-escravo James Scott, vindo da Carolina do Norte, e sua bem mais jovem esposa Molly Scott, originalmente do Texas. James demonstrou um grande talento musical ainda muito jovem, e sua iniciação musical foi dada pela mãe, ainda que não muito experiente em música. Logo, porém, James começou a receber algum treinamento inicial em teoria e interpretação de ouvido de um respeitado pianista originário da área do rio Neosho, bem como aulas particulares, ainda na adolescência, de John Coleman, um professor negro de música de Carthage. Uma afinação perfeita e um senso inato de harmonia ajudaram a acelerar sua compreensão e treinamento. Durante um período de mais ou menos um ano, quando a família vivia em Kansas, o único instrumento que o jovem James tinha à disposição para praticar era um harmônio. Quando a família se mudou de volta para o Missouri, seu pai finalmente conseguiu obter um piano. Há registro da família Scott morando em Neosho, próximo a Carthage, em 1900. A maioria dos filhos também demonstrou talento musical semelhante, mas não prosseguiu na carreira musical. Existem registros de James como trabalhador já com 15 anos. Logo a família se mudaria para Carthage. 

Um dos primeiros empregos de Scott foi como engraxate de um salão de barbeiro de Carthage. Com 16 anos, conseguiu um de seus primeiros empregos remunerados como músico em Lakeside Park, um parque a cerca de meio caminho entre as cidades de Carthage e Joplin, tocando piano e calliope (espécie de órgão a vapor), e ocasionalmente participando de shows realizados por bandas de outras áreas. Não demorou muito para que ele fosse trabalhar em Carthage para a loja musical Dumars, de propriedade do chefe de banda local Charles Dumars, fazendo o trabalho de limpeza e algumas molduras. O Sr. Dumars logo percebeu as habilidades musicais de Scott e permitiu que ele lhe tocasse algumas canções, o que logo trouxe para a loja muitos clientes curiosos, resultando no aumento de vendas de partituras. Dumars acabou ajudando a publicar algumas das composições do próprio Scott, assim como as escritas em conjunto com outros compositores. Durante essa época James compôs algumas músicas e seus três primeiros rags. É de se notar que Carthage, ao contrário de muitas cidades da área, tivesse poucos bares ou outros tipos de entretenimento dirigido a adultos. Dessa forma, ao contrário de muitos outros músicos da época, James não teve que tocar em bares ou bordéis como meio de vida. Em 1904, logo após a edição de um ragtime composto em homenagem à Exposição de St. Louis, On the Pike, Scott fez um concerto juntamente com John W. "Blind" Boone, que passou a gostar do jovem, e até tocou com ele na loja de Dumars durante a visita. 

Em 1906 ele conheceu Scott Joplin em St. Louis, que  ajudou na edição de sua composição Frog Legs Rag com o editor John Stark. Joplin também pode ter desenvolvido algum afeto por James, pois nota-se que a complexidade e variedade das composições de Scott logo se expandiu. Frog Legs Rag foi um sucesso que só ficou atrás de Maple Leaf Rag dentre as obras constantes do catálogo no qual Stark publicou virtualmente qualquer coisa que Scott lhe mandasse ao longo das quase duas décadas seguintes. Parece que Joplin e Scott se encontraram somente uma vez ou duas, e não tiveram um relacionamento continuado, pois Joplin de mudou para a cidade de Nova York. James também formou o Carthage Jubilee Singers, que realizava concertos locais e tocada nas sessões de cinema local do Delphus Theater. É possível que, durante esse período, ele possa ter conhecido com Clarence Woods, compositor branco também de Carthage, pois os dois tiveram aulas com o mesmo professor de piano, e Woods também tocava em cinemas e em concertos locais até se mudar para o Texas por algum tempo. 

Foi também em 1906, com a renda proporcionada por seu emprego na Loja Dumars e pela venda de seus rags, que James comprou uma casa em Carthage e se casou com a Srta. Nora Johnson (ou Norah). O casal nunca teve filhos. Enquanto John Stark ficou em Nova York, de 1906 a 1910, Scott continuou consistentemente a mandar lindas peças para ele, a maioria das quais foi logo publicada. Existem registros de Scott morando em Carthage em 1910, trabalhando como músico e vendedor de pianos. Scott continuou a trabalhar para Dumars até 1914, antes de começar a se dedicar a tocar e ensinar em tempo integral. Em 1918 ele e Norah se mudaram para Kansas City, no Missouri, e mais tarde um pouco mais a oeste de Kansas City, já no estado do Kansas, onde ele passaria o resto da vida. Grande parte de seu trabalho foi na realidade feito no lado da cidade de Kansas City que fica no estado de Missouri. Em 1920 existe registro dele como músico teatral, e de Norah como fornecedora de comida e bebida para festas. Scott ensinou piano num estúdio que montou em Kansas City, e logo comprou um piano de cauda, que dizia ser seu bem mais precioso. Tocou em alguns dos cinemas por algum tempo como solista, especialmente ocupando um cargo por longo tempo no Panama Theater. Scott mais tarde trabalhou com uma banda de sete integrantes que veio a formar, escrevendo a maioria dos arranjos, e ocasionalmente acompanhando a cantora local de blues Ada Brown, prima sua. Devido à sua pequena altura (1,62 m) e vigor musical, era citado como o "pequeno professor". 

A complexidade cada vez maior dos últimos rags de Scott demonstram sua expressiva habilidade pianística. Seu amor pelo gênero foi claramente demonstrado em um de seus últimos rags publicados, Don't Jazz Me, (I'm Music) (Não me venha com jazz, eu sou músico), apesar de que esse rag, como a maioria de suas peças entregues sem título específico, foi provavelmente intitulada por John Stark ou sua equipe. Stark especialmente estava frustrado com o grande quantidade de jazz sem qualidade (pelos padrões da época), e o título dessa peça ironicamente jazzística foi uma das últimas publicações que o editor fez na era do ragtime clássico. Um emprego firme com sua banda de música no teatro Eblon Theater, de propriedade de negros, foi obtido ao mesmo tempo em que Scott enfrentava problemas econômicos, mas ele conseguiu manter seu cargo quando a banda foi substituída por um órgão, pois Scott também dominava bem esse instrumento. Em 1930 a esposa de Scott  faleceu, assim como sua longa carreira tocando em cinemas, devido ao advento dos filmes com som sincronizado. O final de sua vida marcou um longo período com saúde instável, mas Scott continuou compondo e mudando de residência, pelo que se sabe morando em quatro diferentes casas entre 1931 e 1938. Até 1936 sua renda básica provinha de suas aulas. Scott finalmente sucumbiu a uma crise renal em 1938. Alguns de seus trabalhos finais permanecem não publicados ou ainda desconhecidos. 

O intérprete e promoter de ragtime Bob Darch nos contou de seus esforços para encontrar o túmulo de Scott nos anos 50, o que incluiu um pequeno suborno alcoólico ao proprietário do local, para finalmente descobrir que o cemitério estava coberto de mato, e o túmulo de Scott estava com a identificação quase apagada, em péssimas condições gerais. A partir de então, muitos entusiastas de rag de Kansas City fizeram um esforço para honrar o compositor adotado pela cidade com uma nova lápide, e seu túmulo está atualmente bem mantido e é freqüentemente visitado. Felizmente o ragtime não morreu com ele, e a vivacidade das peças de James Scott vão ser ouvidas com deleite por novas gerações de fãs de rag. 

Deve-se ressaltar que a família deste autor residiu por muito tempo em Carthage, e o avô Paul Scroggs lembra-se ainda de ter ouvido ragtime tocado ali, em sua juventude. Parte da pesquisa feita sobre Scott foi realizada no local, nos anos 80 e 90, durante visitas efetuadas pela família a Carthage e Jasper, no Missouri.

 

Charles Leslie Johnson

Charles L. Johnson nasceu em Wyandotte, estado do Kansas, filho de James R. Johnson e Helen Elizabeth Johnson. Conforme registro do censo e de seu certificado militar de 1917, ele era um ano mais velho do que a data de nascimento comumente sugerida como sendo 1876, o que também coincide com seu certificado militar da Primeira Guerra Mundial. Dessa forma, ele provavelmente nasceu em 1875, como mostram especificamente o censo de 1900 e seu certificado militar. Em 1880, existem registros de James como pescador, e de sua esposa como dona de casa. Wyandotte acabou sendo incorporado à cidade de Kansas City, estado do Kansas, que passou então a ser automaticamente considerado seu local de nascimento.
Charlie sentiu-se atraído pelo piano ainda muito jovem, e seu talento natural fez com que seus pais lhe comprassem um exemplar do instrumento quando ele ainda tinha nove anos. Ele teve aulas formais de música clássica até o começo da adolescência, quando a música popular começou a atraí-lo irresistivelmente. Enquanto estudava Beethoven, o pequeno Charlie também praticava às escondidas os sucessos da época. Isso não agradou muito seu professor, um tal Sr. Kreiser, que se sentiu frustrado com esse estilo pianístico não clássico, o que fez com que Charlie desistisse das aulas. Johnson continuou a aprender, apesar de tudo, fazendo cursos que lhe dessem uma base melhor em teoria musical e composição e estudando banjo, violão, violino e bandolim, o que lhe permitia tocar com pequenos grupos.

Johnson viveu sua vida inteira na cidade de Kansas City, a maior parte dela do lado que fica no estado de Missouri (NT: a outra fica no estado de Kansas), que era local de grande atividade de produção de ragtime. Suas primeiras canções foram executadas por pequenos conjuntos, mas somente algumas foram publicadas. Trabalhando como demonstrador de piano e de música em geral para a loja J. W. Jenkins & Sons Company em Kansas City, Charles conseguiu chegar à posição de compositor com um rag, Scandalous Thompson, publicado por Jenkins em 1899. Esse trabalho foi prontamente seguido por Doc Brown's Cake Walk no mesmo ano, uma peça supostamente baseada em um personagem local que é retratado na capa. Jenkins conseguiu entregar um arranjo dessa música para John Philip Sousa quando este visitou a cidade, e essa execução ajudou a tornar a canção bastante popular. Algumas de suas canções e alguns solos de piano incidentais ainda continuaram a ser editados ao longo dos dois anos que se seguiram. Os primeiros cartões comerciais de Johnson e anúncios em revista feitos por ele indicam que ele trabalhava com arranjos musicais e composições feitas a pedidos, com os quais alcançou um sucesso limitado nos primeiros anos.

Charles Johnson  casou-se por volta de 1901 com Sylvia (Hoskin) Johnson, e logo tiveram uma filha, Frances. Em 1902, a empresa Carl Hoffman para quem ele agora trabalhava, publicou A Black Smoke, um de seus mais interessantes folk rags. Em 1905 ele tentou contrapor à popularidade do sucesso Hiawatha (composto em 1902 por seu amigo e também compositor de Kansas City Charles N. Daniels) um intermezzo similar denominado Iola, que fez algum sucesso. No ano seguinte transformou Iola em canção, assim como fizera com Hiawatha. Ambas as peças tiveram os títulos derivados de nomes de cidades do estado de Kansas, e não de nomes nativos ou culturas americanas, mas as cidades tinham originalmente ganhado seus nomes dessa maneira, então certamente havia uma ligação indireta. Iola tornou-se ponto de controvérsia três décadas mais tarde, em 1940, com a edição e gravação de uma canção chamada Playmates, feita por uma big band, que em grande parte soava suspeitamente como a canção de Johnson. Se nessa época algumas pessoas já poderiam ter esquecido a canção, o compositor certamente não tinha, e juntamente com o atual dono dos direitos autorais, Jerry Vogel, ele lutou contra a empresa Santly-Joy, que detinha os direitos de Playmates. Em 1944, Johnson e Vogel conseguiram receber um acordo na justiça.

Foi em 1906, quando Iola ganhou letra, que Johnson compôs seu maior sucesso, Dill Pickles, apresentando o agora onipresente padrão ¾ utilizado em ragtime, que mais tarde foi usado por toda a Tin Pan Alley*. O título foi dado supostamente por acaso, quando um outro empregado do prédio perguntou a Johnson em que ele estava trabalhando. Johnson viu o empregado segurando seu jantar na mão, inclusive pickles feitos dill (ou endro), e decidiu que esse seria o título da música. A partir daí a produção de Johnson ficou bastante expressiva, tanto em termos de volume e qualidade como de viabilidade comercial. Segundo se sabe, esse foi um dos quatro rags compostos por ele que, durante sua vida, vendeu mais de um milhão de cópias.

O sucesso de Dill Pickles ajudou-o não só a incentivá-lo, mas também a financiar sua carreira como administrador de sua própria editora. Em virtude da variedade de rags, canções, intermezzos e outras publicações que produzia, Charlie utilizava ocasionalmente os pseudônimos Raymond Birch, Herbert Leslie e Eugene Ballard para não “inundar o mercado” com seus próprios trabalhos. Quando vendeu sua firma por uma considerável soma à organização de Harold Rossiter, estipulou a condição de que este último não poderia entrar no ramo de editoração novamente por pelo menos um ano. Mas com sua produção e reputação, Johnson não teve problema nenhum em encontrar quem quisesse editá-lo, à época. Também trabalhou como autônomo e sob contrato como arranjador durante a era do ragtime, e existem muito mais peças por cuja edição ele foi responsável do que jamais poderemos vir a saber.

Muitos dos rags feitos pelo próprio Johnson após 1906 utilizavam  o padrão secundário, ou ¾, que ele já utilizara em Dill Pickles. Como eram geralmente simples de tocar e decorar, seus produtos vendiam rapidamente. A simplicidade combinava com seu estilo, e seu trabalho era muito respeitado por muitos compositores jovens que lhe pediam conselhos ou até lhe enviavam trabalhos para que ele fizesse os arranjos. Mas ele também era admirado por sua versatilidade. Johnson era competente tanto para produzir uma balada ou intermezzo quanto um rag popular. Seus trabalhos posteriores, feitos em meados dos anos 10, mostraram uma inclinação maior na direção de músicas para dançar, e mesmo os rags eram, com freqüência, foxtrotes levemente sincopados ou não sincopados para três instrumentos. Há obviamente muita alegria em sua música, e até onde se sabe, essa foi também sua tônica de vida.

A maioria das composições feitas a partir de meados de 1912 foi publicada pela Forster Music, pois ele se aposentou do negócio de editoração a partir dessa época. Em 1910 há registro dele ainda vivendo com Sylvia, apesar da filha dos dois não aparecer. Seu certificado militar de 1918 mostra-o de novo como editor musical, mas trabalhando para a orquestra de Jack Riley. Pelo certificado também se entende que nessa época ele não estava mais casado, pois sua mãe é mencionada como seu parente mais próximo, sem menção a esposa. Um de seus maiores sucessos aconteceu em 1919 com Sweet and Low, uma canção que segundo se sabe lhe rendeu US$30,000 enquanto perduraram as edições.

Deve ser ressaltado que se por um lado Johnson raramente editou trabalhos feitos por outros compositores, muitos dos que ele editou foram feitos por mulheres. Num mercado um tanto competitivo, com dois outros grandes editores na mesma cidade, Johnson  percebeu que qualquer obra que fosse digna de mérito não deveria ser publicada somente às expensas do autor. Isso incluía Kate Myers Stith, Enola Kempka, Elva Tarlton, Maude Muller Gilmore, Lucy B. Phillips, Frances Cox e Ethel May Earnist, o última das quais acredita-se ser um dos nomes artísticos que Johnson pode ter adotado por muitos anos. Os últimos negócios feitos por Johnson foram em grande parte enviados a Forster, mas não podemos afirmar com absoluta certeza quantos compositores (de ambos os sexos) ele enviou a este último, ou até a seu rival Jenkins & Sons, em Kansas City. Ainda mais admirável é como ele mantinha uma concorrência viável com os compositores da Tin Pan Alley de Nova York, assim como com os compositores populares de Chicago, todos de sua vizinhança em Kansas City.

Charlie casou-se novamente nos anos 20 com Eva Johnson, e passou grande parte do resto de sua vida incidentalmente envolvido com música, enquanto oficialmente aposentado. De acordo com o censo de 1930 ele ainda era compositor musical, e vivia com a esposa e a mãe. Nesse mesmo ano, após mais de três décadas compondo, ainda viveu mais um relativo sucesso com a gravação de seu Jubilee in the Sky, feita por Fred Waring and His Pennsylvanians. Os Forster eram uns dos melhores amigos de Johnson, em seus últimos anos,  com quem o casal sempre se encontrava. Em Kansas City ele trabalhou por muitos anos em um evento anual chamado Nit Wit Show, promovido pelo Clube Universitário. Finalmente, em 1941, ele entrou para a ASCAP – Sociedade Americana de Compositores, Autores e Editores, mais de duas décadas após esta ter sido fundada, juntando-se às fileiras de tantos outros famosos compositores da Tin Pan Alley que tinham iniciado a organização. Johnson também continuou a escrever e a fazer arranjos, alguns dos quais foram feitos para o Grand Ole Opry**, em Nashville, Tennessee. Descobriu--se, após sua morte, que ele escrevera uma grande quantidade de material que não for a publicado, alguns dos quais talvez no final dos anos 40. Charlie morreu pacificamente apenas três semanas após seu 75º aniversário, e está enterrado no cemitério de Oak Grove.

Agradeço a Phil A. Stewart, de Kansas, que realizou a mais abrangente pesquisa sobre Johnson, que ajudou a aumentar a pesquisa demográfica feita por este autor. Ele também compilou a mais completa lista disponível das composições de Johnson, e tem um livro e um encarte musical separado disponível sobre Johnson, ambos altamente recomendados. A lista de trabalhos não publicados é da Biblioteca da cidade de Kansas, que abriga os papéis oficiais de Charles L. Johnson.


Note-se que Sweetness, de Fannie Bell Woods, e Peanuts: A Nutty Rag, de Ethel Earniest, não foram incluídas nas relações ou na biografia como pseudônimos de Johnson, como se acreditava anteriormente ser o caso. A identidade das duas mulheres como sendo as verdadeiras compositoras desses trabalhos foi realmente verificada com grande nível de detalhe, comprovando essa afirmação. Suas respectivas biografias podem ser encontradas na seção de Compositoras Femininas de Ragtime.

 

* = Tin Pan Alley = É simples. "Tin" quer dizer lata, "Pan" é panela e "Alley" é beco. Beco das Panelas de Lata.

Apertada entre a 5ª e a 6ª Avenida, em Nova Iorque, fica a 28th Street ou, para os musicólogos mais atentos, a Tin Pan Alley.

No início do século XX, por efeito de arrastamento ou pura disponibilidade de espaço, juntaram-se neste espaço a maioria das editoras de música americana. A alcunha foi grangeada à custa da amalgama dos sons dos inúmeros pianos que soavam - dia fora - em audições e ensaios. O jornalista do "Herald", Monroe Rosenfeld, escreveu num dos seus editoriais de 1903 que, da rua ecoava um som que se assemelhava ao bater de milhares de panelas de lata.

Assim nasceu a Tin Pan Alley.  Fonte: http://kosbb.blogspot.com/2006/09/blueseologia-tomo-i-tin-pan-alley.html
** Desde 1925, o programa "Grand Ole Opry" da WSM Radio de Nashville, Tennessee, foi sinônimo de música country, por causa das grandes apresentações que ali ocorreram, todos os sábados à noite. Foi o palco preferido pelos artistas que queriam se projetar ou por aqueles, já consagrados, que desejavam mostrar seus novos trabalhos.
Hoje, ser membro do "Grand Ole Opry" é sinônimo de projeção e prestígio. O teatro começou como palco para os artistas que queriam promover suas carreiras, mas foi com Roy Acuff que o profissionalismo ali se estabeleceu definitivamente e o programa ganhou maior projeção.
Fonte: http://www.musicacountry.com/histo2.htm

 

May Frances Aufderheide

May Frances Aufderheide nasceu em uma família um tanto musical de Indianápolis, estado de Indiana. Filha de John Henry Aufderheide, um violinista competente que escolheu fazer carreira em banco, e de Lucy M. (Deel) Aufderheide. Algumas fontes mencionam diferentes anos como sendo de nascimento, mas o censo de 1900 é razoavelmente específico ao citar a data de 1888, que se alinha plausivelmente bem com as idades mencionadas em 1920 e 1930. A irmã de John, May Kolmer, era uma pianista de talento que tinha feito concertos públicos com a Sinfônica de Indianápolis, tendo mais tarde lecionando na Escola de Música Metropolitana. May Frances teve aulas clássicas de piano com a tia ainda na adolescência, mas sempre se sentiu fascinada pelo ragtime e por música popular. É provável que tenha sido quando ela ainda freqüentava a finishing school* no leste americano que ela escreveu seus primeiros rags. Quando regressou, por volta do início de 1908, May estava determinada a ver uma de suas peças editada. Com a ajuda do jovem pintor de outdoors e letreiros chamado Duane Crabb, que desenhou a capa e conseguiu as máquinas para a impressão, e de um de seus amigos e futuro compositor, Paul Pratt, que fez o arranjo musical e as chapas para impressão, Dusty Rag foi lançada.

Crabb não tinha capacidade de distribuir a peça além dos limites urbanos de Indianápolis, e enquanto May estava excursionando pela Europa (como era exigido de todas as moças nascidas de famílias abastadas), Dusty Rag estava inicialmente juntando poeira nas lojas de música locais. Quando de seu retorno, em 1908, ela se casou com o jovem arquiteto Thomas M. Kaufman em 25 de março, e no final do ano eles se estabeleceram na parte leste do estado, em Richmond. Seu desejo de compor deve ter se intensificado quando sua prima Frieda Aufderheide conseguiu editar o The Flyer Rag. O pai de May percebeu que ela estava determinada a escrever, e incentivado em parte pela habilidade demonstrada por ela em editar um rag por seus próprios esforços, e também pelas vendas crescentes de Dusty Rag, constituiu a empresa J.H. Aufderheide & Company, que ficou encarregada de editar os trabalhos por ela produzidos. John comprou os direitos autorais de Dusty Rag e reimprimiu a música sob seu selo, juntamente com Richmond Rag, também de autoria dela. Ao contratar Paul Pratt para administrar a empresa ele conseguiu êxito suficiente para obter espaço no Jornal Americano de Músicos e Arte (American Musician and Art Journal), no verão de 1909. Eles elogiaram profusamente May Frances como compositora de futuro, chamando a atenção do público para as duas peças que na época eram motivo de grande procura no mercado, e mencionando duas outras que seguramente seriam outros sucessos. Essas duas peças eram Buzzer Rag e The Thriller, esta última a que se tornaria seu trabalho mais conhecido.

A empresa Aufderheide editou outros trabalhos além dos de Paul Pratt, e adicionalmente dois de Gladys Yelvington e Julia Lee Niebergall, conhecidas de May. May e seu marido regressaram a Indianápolis em 1911, parte devido à incapacidade de Thomas em arrumar trabalho no ramo de arquitetura, e parte para que pudessem viver em um local onde ele tivesse melhores perspectivas de renda. Foi nessa época que ela terminou seu último piano rag editado, Novelty Rag. A única edição da empresa Aufderheide em 1912 foi uma versão de Dusty Rag feita para canção, que não emplacou muito. O Sr. Kaufman acabou trabalhando para John no ramo bancário como corretor, e diz-se que seu casamento com May permaneceu conflituoso, apesar da segurança financeira. Em 1920 há registro dela sem nenhuma ocupação específica, sequer como professora de música. Em 1922 o casal adotou uma filha, Lucy Kaufmann. O censo de 1930 menciona Thomas como corretor de investimentos durante um tempo difícil de exercer esse tipo de profissão. May deixou definitivamente de tocar por volta dos anos 30, e a família acabou de mudando para a Califórnia no final dos anos 40. No final dos anos 50 a Sra. Kaufman ficou presa a uma cadeira de rodas em decorrência de uma artrite, assim permanecendo até sua morte. Thomas morreu no final de 1960, e ela viveu em Pasadena, na Califórnia, por mais 12 anos, até sua morte. Até hoje, os rags de May Aufderheide permanecem entre os mais populares entre os compostos por mulheres.

* Finishing School = uma tipo de escola particular para homens ou mulheres, que enfatiza a formação em atividades culturais e sociais.
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Finishing_school

 

Julius Lenzberg

Julius Lenzberg nasceu em Baltimore, estado de Maryland, filho dos imigrantes alemães Henry e Julia Lenzberg, o mais jovem de seis meninas e três meninos que compunham a família. Seu pai trabalhava como empacotador de cigarros quando Julius era pequeno. Um dos muitos talentosos compositores de Baltimore, Lenzberg tinha ouvido para música e recebeu uma formação musical clássica. Em 1900, já tendo editado localmente duas marchas, foi citado como músico de Baltimore, apesar de ainda viver com seus pais e alguns dos irmãos mais velhos. Por volta de 1910 estava casado com Ella Lenzberg e morava em Manhattan, onde existe registro seu como músico itinerante. Esse também foi seu período mais produtivo como compositor, quando escreveu muitos rags articulados que refletiam sua formação clássica e sua inclinação por extravagância e por querer ser o centro das atenções. Se bem que suas peças não fossem campeãs de vendas, excetuando-se Hungarian Rag, pode-se dizer que forneciam uma confortável renda suplementar para o casal.

Em meados dos anos 10, os Lenzberg tinham se mudado para uma casa no bairro de Queens, onde viveram pelo resto da vida. Em seu registro militar de 1918 sua profissão consta como Regente de Orquestra. Por volta de 1920, Julius trabalhava para o Keith Theater, uma das poucas cadeias remanescentes de Vaudeville. A partir de 1919 ele também gravou um número razoável de músicas para dançar com sua Orquestra Riverside,  a maior parte delas para os selos Edison e Pathé. O pai de Lenzberg falecera por volta de 1920, e sua mãe e irmã Florence passaram a viver com ele. Ele e a esposa nunca tiveram filhos. Durante os anos da Grande Depressão, a partir do final dos anos 20 e durante os anos 30, ele ainda ficou diretamente envolvido com música, dirigindo orquestras de palco. Lenzberg chegou a gravar sob a denominação Os Harmonistas de Julius Lenzberg sob o selo Okeh, e também sob a denominação Julius Lenzberg e sua Orquestra. Acabou mudando a carreira para o9 campo da administração, longe da chatice de ter que preparar apresentações musicais semanalmente. O empregador de Lenzberg em 1942 era a Select Operating Corporation, uma empresa  que atuava no ramo de corretagem de imóveis e administração teatral, e que incluía a Organização Shubert. São difíceis de serem encontrados dados que incluam os anos além desse ponto, até a sua morte.

Os sucessos de Lenzberg durante a era do ragtime foram poucos, mas dignos de nota. Um de seus grandes talentos foi ter sabido adaptar canções clássicas bastante conhecidas para o formato ragtime, ao piano. Entre esses sucessos encontram-se Hungarian Rag e Operatic Rag, que ajudaram a incentivar uma tendência segundo a qual compositores de rag, tais como George L. Cobb e Felix Arndt, bem como vários intérpretes, transformavam em rags várias músicas, freqüentemente em detrimento tanto dos compositores originais como dos respectivos arranjadores. O arranjos de Lenzberg são, na verdade,  modernos e inovadores no uso desses temas, ao contrário de muitas tentativas similares, de qualidade inferior. Seu Haunting Rag figura entre um dos mais originais de seus trabalhos. Lenzberg também co-produziu um rag com o estimado compositor de baladas Ernest R. Ball.

 

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